Uma construtora de Curitiba denunciou ao CNJ que um desembargador do Tribunal de Justiça do Paraná recebeu um quadriciclo avaliado em R$ 62,5 mil como suposto pagamento por reverter decisões anteriores em um processo judicial.
O Pedido de Providências da Construtora Zoller contra o desembargador Francisco Carlos Jorge chegou ao órgão em 28 de abril. A acusação é sustentada por nota fiscal em nome do filho do magistrado e pelo depoimento do administrador da loja onde o veículo foi adquirido.
O CNJ confirmou a abertura de procedimento na Corregedoria Nacional de Justiça para apurar as suspeitas, mas pediu mais informações antes de qualquer conclusão.
Segundo a petição, assinada pela advogada Maria Tereza Uille — ex-conselheira do CNJ por dois mandatos (2017–2021) e ex-secretária de Justiça do Paraná —, o suposto pagamento ocorreu dois dias após um julgamento na 17ª Câmara Cível do TJ-PR que reverteu decisões anteriores favoráveis à Zoller.
Como o quadriciclo teria sido comprado
A construtora afirma que, no dia 2 ou 3 de outubro de 2024, o advogado Michel Guerios Netto — recém-contratado pela parte adversária — foi a uma loja de Curitiba e escolheu um modelo vermelho de quadriciclo. O veículo foi pago em dinheiro vivo por um terceiro, com nota fiscal de R$ 52 mil.
Depois, o filho do desembargador teria ido à mesma loja e trocado o modelo vermelho por um azul mais caro, pagando a diferença de R$ 10,5 mil. Uma nova nota fiscal, no valor total de R$ 62,5 mil, foi emitida em nome do filho do magistrado — documento que a empresa usou para vincular documentalmente o veículo à família do juiz.
O advogado Michel Guerios Netto nega ter ido à loja ou escolhido o quadriciclo. Em nota, classificou as alegações como “caluniosas” e afirmou que os documentos apresentados têm “conteúdo falso” fabricado. Ele anunciou medidas judiciais, inclusive na esfera criminal.
A disputa que originou as suspeitas
O processo remonta a 1993, quando a Construtora Zoller foi acionada por atraso no pagamento de aluguéis. Uma das sócias, que era fiadora, alegou que ficou sem ciência das decisões judiciais até 2020 — por erro da Justiça — e pediu a anulação da execução.
A empresa afirma que vencia a ação por unanimidade até que a parte contrária contratou novo advogado e obteve a reversão das decisões em 2024, “ressuscitando” uma dívida calculada em R$ 14 milhões pela parte adversária. A Zoller contesta o valor e sustenta que o montante real é de R$ 288,5 mil.
O TJ-PR, consultado pela reportagem, respondeu apenas que seguirá “todas as recomendações do CNJ”. O desembargador Francisco Carlos Jorge não enviou resposta.
A denúncia chega em momento de intenso debate sobre punições a magistrados. Em março de 2026, o ministro do STF Flávio Dino determinou que o CNJ substitua a aposentadoria compulsória pela perda do cargo — e do salário — como punição máxima disciplinar, decisão que gerou ampla discussão entre juristas e especialistas.
Nos autos do Pedido de Providências, a Corregedoria notificou a Construtora Zoller para apresentar relato cronológico detalhado e documentos comprobatórios. O órgão também pediu informações ao desembargador Mário Luiz Ramidoff, que era relator do processo antes de Francisco Carlos Jorge assumir o caso.
A Corregedoria Nacional de Justiça, mesma instância que recebeu a denúncia da Construtora Zoller, também investiga outro front de corrupção no Judiciário: um possível esquema de R$ 10,9 bilhões em precatórios irregulares emitidos por juízes federais em Brasília, apurado pela Polícia Federal.
O CNJ ressaltou que não há conclusão sobre a plausibilidade dos fatos e que tanto a alegação sobre o quadriciclo quanto os aspectos da tramitação processual serão “analisados oportunamente”.
