Em sessão aberta nesta segunda-feira (4), o Tribunal Superior do Trabalho virou palco de um confronto público entre seu presidente, ministro Vieira de Mello Filho, e o ministro Ives Gandra Filho.
O embate, que durou cerca de 30 minutos, foi desencadeado pela viralização de trechos em que Vieira de Mello falou sobre juízes “azuis e vermelhos” — expressão usada para dividir a Corte entre perfis mais ou menos ativistas em favor dos trabalhadores.
Ao fim, a ministra Maria Cristina Peduzzi criticou ambos, dizendo não ver “nenhuma atitude democrática” no bate-boca.
Como tudo começou
O estopim foi um curso ministrado por Ives Gandra Filho para advogados que atuam no TST, no qual classificou os colegas entre “azuis” — mais liberais e legalistas — e “vermelhos” — mais intervencionistas e ativistas.
Em evento de magistrados no último dia 1º, Vieira de Mello Filho reagiu indiretamente, afirmando que “não tem juiz azul nem vermelho” e que “tem quem tem interesse e tem quem tem causa”. O trecho viralizou associado a posições políticas dos magistrados.
Na sessão desta segunda, o presidente buscou contextualizar a fala: “Quis dizer que batizado que fui pela cor que me deram, eu queria deixar claro qual era a minha causa. A minha causa é a defesa dessa instituição.”
Ele também questionou a postura do colega: “Como presidente do tribunal, eu não posso ficar omisso diante de cursos sobre como advogar nessa Corte. Se isso não é conflito ético, o que mais seria.”
A defesa legalista
Ives Gandra reconheceu a divisão interna no tribunal, mas rejeitou que sua posição equivalha a um “juízo moral”. “Eu sou legalista. A lei está dizendo isso, eu vou seguir, não vou fazer interpretação que vá ampliar mais os direitos trabalhistas”, afirmou.
O ministro defendeu que decisões mais interventivas prejudicam a empregabilidade: “O peso vai realmente cair nas empresas no sentido de que vai ser mais difícil dar empregabilidade.” Gandra argumentou ainda que autocrítica não representa destruição da Justiça do Trabalho, mas um caminho para aprimorá-la.
Ao encerrar o embate, Vieira de Mello ironizou a própria situação: “Não fui eu que dividi em azul e vermelho. Aliás, eu acho que sou cor-de-rosa. Tô misturando o azul com vermelho.”
A ministra Maria Cristina Peduzzi deu o tom conclusivo ao episódio, criticando diretamente ambos os colegas: “Não vejo nenhuma atitude democrática em um bate-boca como esse que se travou.”
O racha entre “ativistas” e “legalistas” no TST ecoa um debate que já chegou à disputa eleitoral: pré-candidatos ao Planalto travam guerra de propostas para reformar o Judiciário e limitar o que chamam de ativismo das cortes superiores. O STF já virou tema de campanha, com presidenciáveis propondo reformas na Corte — e o confronto desta segunda no TST deve alimentar ainda mais esse debate.
