O bloqueio do Estreito de Ormuz pela guerra no Irã está na raiz de uma crise alimentar global silenciosa: até 10 bilhões de refeições podem deixar de ser produzidas por semana por falta de fertilizantes, segundo o CEO da Yara, um dos maiores fabricantes do insumo no planeta.
Svein Tore Holsether alertou que meio milhão de toneladas de fertilizante nitrogenado pararam de ser produzidas — volume suficiente para reduzir a produtividade de culturas inteiras em até 50% já na primeira safra.
Gargalo no Golfo, fome no campo
Segundo a ONU, cerca de um terço de todos os fertilizantes do planeta — ureia, potássio, amônia e fosfatos — normalmente trafegam pelo Estreito de Ormuz. Com o canal bloqueado pelas hostilidades, a cadeia global de suprimentos agrícolas entrou em colapso parcial.
Os preços do fertilizante acumulam alta de 80% desde o início da guerra entre EUA, Israel e Irã. O choque vai além dos insumos agrícolas: o Banco Mundial projeta alta de 24% nos preços de energia em 2026, com o estreito ainda amplamente bloqueado ao comércio marítimo de commodities — pressão que se soma ao diesel mais caro e aos demais insumos que os agricultores já enfrentam.
“Eles enfrentam custos de energia mais altos, o diesel para trator está aumentando, outros insumos estão aumentando, o custo do fertilizante está aumentando, mas ainda assim os preços das safras ainda não aumentaram na mesma medida”, disse Holsether à BBC.
Os destinos mais vulneráveis são Ásia, Sudeste Asiático, África e América Latina. Países da África subsaariana, que já operam com subfertilização crônica, podem registrar quedas significativas na produção agrícola. O professor Paul Teng, pesquisador de segurança alimentar em Cingapura, alerta que, mesmo que alguns países tenham estoque para a temporada imediata, “se a crise se prolongar, veremos um impacto em culturas como o arroz nos próximos meses”.
As épocas de plantio variam globalmente: o Reino Unido está na alta temporada, enquanto na Ásia os agricultores estão apenas começando. Os efeitos da escassez de fertilizantes na Ásia não devem aparecer nos preços antes do segundo semestre, quando colheitas comprometidas chegarem ao mercado.
Brasil na linha de frente, Europa no dilema moral
O Brasil, maior importador mundial de fertilizantes, já acumula alta de 67% na ureia desde o início do conflito, com a próxima safra nacional diretamente ameaçada pela mesma escassez que a Yara agora quantifica em bilhões de refeições perdidas por semana.
No plano geopolítico, Holsether lança uma advertência direta à Europa: em uma disputa global por alimentos, as nações mais ricas acabam deslocando as mais pobres. “De quem estamos tirando comida ao comprarmos?”, questionou o executivo. “As pessoas mais vulneráveis pagam o preço mais alto nisso, em nações em desenvolvimento que não podem se dar ao luxo de acompanhar.”
O Programa Mundial de Alimentos da ONU estima que as consequências combinadas do conflito no Oriente Médio podem levar 45 milhões de pessoas a mais à fome aguda em 2026. Na Ásia e no Pacífico, a insegurança alimentar deve crescer 24% — o maior aumento relativo entre todas as regiões do mundo.
No Reino Unido, a inflação de alimentos pode atingir 10% em dezembro, segundo a Federação de Alimentos e Bebidas. O Banco da Inglaterra projeta alta de 4,6% nos preços de alimentos até setembro, com aceleração prevista até o fim do ano — antecipando o que analistas descrevem como o impacto visível de uma crise que já começou nas lavouras.
