O Banco Central decretou nesta quinta-feira (30) a liquidação extrajudicial da Frente Corretora de Câmbio S.A., com sede em São Paulo. A medida encerra as atividades da instituição e coloca o BC no comando do processo de apuração patrimonial.
A decisão foi motivada por comprometimento da situação econômico-financeira e por graves violações às normas legais e regulamentares que regem a atividade da corretora. Os bens dos controladores e ex-administradores já estão indisponíveis por força de lei.
A Frente ocupava a segunda posição no ranking de câmbio do BC em 2024, após registrar volume superior a US$ 2 bilhões em operações — salto impulsionado principalmente por transações com plataformas internacionais de apostas.
De startup de câmbio a alvo do Banco Central
Fundada em 2017, a Frente Corretora nasceu com a proposta de quebrar a concentração do mercado de câmbio no Brasil, então dominado pelos grandes bancos. Sob a liderança da CEO Daniela Marchiori, a empresa apostou em tecnologia e parcerias para ampliar o acesso ao câmbio, com a plataforma Simple voltada ao modelo B2B2C.
Durante a pandemia, a corretora acelerou sua expansão internacional. Em 2022, recebeu investimento da Travelex, que adquiriu 10% do capital. O grupo chegou a reunir operações como FrenteTech, Frente USA e Comm.Pix, além de parcerias com PicPay, MoneyGram, Smiles e Livelo.
O crescimento foi expressivo: de cerca de US$ 80 milhões movimentados em 2021, a empresa saltou para mais de US$ 2 bilhões em 2024. Segundo o Pipeline, boa parte da expansão foi alimentada por transações vinculadas a plataformas internacionais de apostas esportivas.
Com a liquidação, o BC passa a conduzir o encerramento das atividades e pode aplicar sanções administrativas, além de comunicar outros órgãos competentes sobre os responsáveis pelas irregularidades identificadas. A corretora está enquadrada no segmento S4 da regulação prudencial, que reúne instituições de menor porte com baixa representatividade no Sistema Financeiro Nacional.
Parte de uma onda inédita de encerramentos
A liquidação da Frente Corretora integra uma sequência que, entre o fim de 2025 e o início de 2026, somou cerca de 14 liquidações extrajudiciais decretadas pelo Banco Central — um ritmo sem precedentes recentes no sistema financeiro nacional.
A onda tem um epicentro claro: o colapso do Banco Master, cujos ativos cresceram 2.123% em cinco anos sobre bases fraudulentas antes de o BC intervir em novembro de 2025 — ponto de partida da série de encerramentos que agora alcança a Frente Corretora. O conglomerado concentrou oito intervenções entre novembro de 2025 e fevereiro de 2026. Entenda o colapso do Banco Master e os 2.123% de crescimento fraudulento.
A Frente Corretora não é caso isolado nesse cenário. Duas semanas antes, o Banco Central já havia decretado a liquidação extrajudicial da Creditag, cooperativa goiana, consolidando a sequência inédita de encerramentos no sistema financeiro nacional. Veja o caso da Creditag e o bloqueio de bens de ex-gestores.
Além de financeiras e bancos de menor porte, empresas de pagamento também foram alvo de intervenção ao longo de 2026, revelando uma atuação mais assertiva da autoridade monetária sobre segmentos que cresceram aceleradamente nos últimos anos.
