O Brasil reverteu décadas de avanço no combate ao cigarro: a prevalência do tabagismo saltou de 9,3% para 11,6% entre 2023 e 2024, um aumento de 25% em apenas um ano.
O retrocesso acontece enquanto o Reino Unido vai na direção oposta e aprova a lei mais radical do mundo contra o fumo — proibindo permanentemente a venda de tabaco para todos os nascidos a partir de 2009.
O contraste entre os dois países é o ponto de partida do episódio #1707 do O Assunto, podcast diário do g1, com uma pneumologista da Fiocruz e uma especialista em direito constitucional.
Por que o Brasil retrocedeu no combate ao tabagismo
Com o terceiro cigarro mais barato da América do Sul, o Brasil viu quase uma década de preços congelados em termos reais abrir caminho para um crescimento expressivo no consumo. O mecanismo de tributação progressiva — que havia sido central para reduzir o tabagismo nas décadas anteriores — perdeu força, e o resultado aparece nos números.
Outro vetor de expansão é o cigarro eletrônico. Os vapes avançam especialmente entre jovens, em um mercado que opera majoritariamente na informalidade apesar da proibição formal pela Anvisa. Design atraente, preço acessível e marketing digital transformaram os dispositivos em um desafio de saúde pública com características próprias — distinto do cigarro convencional, mas igualmente dependente de nicotina.
Em paralelo, uma ação judicial bilionária contra a indústria do tabaco está em fase final no Brasil, recolocando na pauta o debate sobre responsabilidade das fabricantes pelos danos causados à saúde coletiva. Pesquisadoras da Fiocruz documentaram como campanhas de responsabilidade social da indústria criam a ilusão de um produto menos nocivo, especialmente entre não fumantes e mulheres — uma estratégia que dificulta avanços regulatórios.
O parlamento britânico aprovou uma lei que proíbe a venda de tabaco para todos os nascidos a partir de 2009, com validade vitalícia. A medida cria, na prática, uma geração inteira de não fumantes e é usada no episódio como contraponto para discutir o que o Brasil poderia aprender com experiências internacionais.
O que dizem as especialistas
Margareth Dalcolmo, pneumologista e pesquisadora da Fiocruz e membro titular da Academia Nacional de Medicina, analisa os fatores estruturais que explicam o avanço recente do tabagismo — e os mecanismos que o Brasil já utilizou com sucesso no passado e que perderam força nos últimos anos.
A advogada Eloisa Machado, professora da FGV/SP e especialista em direito constitucional e direitos humanos, aborda os caminhos jurídicos e regulatórios disponíveis para conter a tendência, incluindo os desafios impostos pelos novos dispositivos eletrônicos e as lacunas na fiscalização atual.
O impacto nos cofres públicos é outro eixo central do debate: o tabagismo gera números expressivos de mortes, internações e custos para o SUS, tornando o tema não apenas uma questão de saúde individual, mas de sustentabilidade do sistema público de saúde brasileiro.
O episódio #1707 do O Assunto foi apresentado por Natuza Nery e está disponível em todas as plataformas de áudio e no YouTube. O podcast diário do g1 acumula mais de 168 milhões de downloads desde sua estreia, em agosto de 2019.