Três brasileiros naturalizados morreram no domingo (26) em um ataque israelense no sul do Líbano, enquanto um cessar-fogo estava em vigor. Ali Ghassan Nader, de 11 anos, e seus pais, Ghassan Nader e Manal Jaafar, foram mortos no bombardeio.
O menino havia nascido no Líbano, mas era naturalizado brasileiro. Sonhava conhecer o país onde os pais viveram por quase 20 anos — e era fã declarado da Seleção Brasileira.
O Ministério das Relações Exteriores confirmou as mortes e classificou o ataque como parte das “reiteradas e inaceitáveis violações ao cessar-fogo”.
Da Foz do Iguaçu ao sul do Líbano
A família construiu raízes no Brasil na década de 1990. Ghassan e Manal se estabeleceram em Foz do Iguaçu, no Oeste do Paraná, onde fizeram a naturalização e tiveram três filhos. Viveram no país até 2010, quando uma visita ao Líbano se converteu em permanência — o irmão de Ghassan faleceu, e o casal optou por ficar.
“Sempre mantiveram o amor pelo Brasil e ensinaram isso aos filhos”, disse Mohamad Ali Kassem Jaafar, tio de Ali e irmão de Manal.
Ali nasceu no Líbano, mas tornara-se naturalizado brasileiro. O apreço pela Seleção, segundo familiares, era o elo mais visível com um país que ele nunca conheceu pessoalmente — e que sonhava visitar um dia.
Com o início dos conflitos, a família havia deixado o sul do Líbano e se mudado temporariamente para Beirute. Após o anúncio do cessar-fogo, decidiram retornar à casa. Foi quando o bombardeio aconteceu.
“Um dia antes, eu fui à casa deles. A gente chegou a passar a noite lá”, relatou o tio, que encontrou a residência destruída ao chegar ao local após saber do ataque.
Um dos irmãos de Ali estava na casa no momento do bombardeio e sobreviveu. Outros dois filhos do casal não estavam no local. O corpo de Ali foi enterrado na segunda-feira (27); os dos pais ainda não haviam sido localizados até o fechamento desta reportagem.
O ataque de domingo vitimou ao menos 14 pessoas e deixou outras 37 feridas no sul do Líbano. A violência ocorreu mesmo com o cessar-fogo Israel-Líbano em vigor desde 16 de abril — o mesmo acordo que o Itamaraty classificou, nesta semana, como alvo de reiteradas e inaceitáveis violações.
A morte da família brasileira insere-se num contexto de escalada que já havia sido alertado por militares do país. Semanas antes, Israel havia desencadeado a maior onda de ataques aéreos ao Líbano desde o início da invasão, com mais de 112 mortos em um único dia, segundo relato de um oficial da Marinha brasileira que serve na Unifil.
O Brasil vem defendendo a retirada imediata das tropas israelenses do Líbano e a efetiva observância da trégua. A cobrança do Itamaraty por um cessar-fogo que alcançasse o Líbano já era pública desde 8 de abril — pedido que ganhou urgência trágica com a confirmação das três mortes.
O presidente norte-americano Donald Trump havia anunciado na quinta-feira (23) a prorrogação da trégua por mais três semanas, com vigência prevista ao menos até a segunda quinzena de maio. Ainda assim, Israel e o Hezbollah trocaram ataques nos dias seguintes. A embaixada brasileira em Beirute está em contato com os familiares das vítimas para prestar assistência consular.