O governo americano ordenou que gigantes do setor de semicondutores interrompam o envio de ferramentas e materiais à Hua Hong, segunda maior fabricante de chips da China. As cartas do Departamento de Comércio dos EUA atingiram diretamente Lam Research, Applied Materials e KLA — empresas com forte exposição ao mercado chinês e bilhões em contratos em risco.
A decisão, tomada na semana passada, é mais um capítulo da ofensiva de Washington para impedir que a China avance na produção de chips voltados à inteligência artificial, com respaldo em razões de segurança nacional.
As cartas enviadas pelo Departamento de Comércio visam impedir que as instalações da Hua Hong — e de sua subsidiária, a Huali Microelectronics — recebam equipamentos capazes de sustentar a fabricação dos chips mais avançados produzidos no país. Autoridades americanas acreditam que o grupo tem condições reais de alcançar esse patamar.
Em março, a Reuters havia revelado que a Hua Hong desenvolveu tecnologias de fabricação com potencial para produzir chips de inteligência artificial — um marco nos esforços de Pequim por autossuficiência tecnológica. A Huali se preparava para adotar um processo de 7 nanômetros em sua planta em Xangai, o que representaria um segundo polo nacional nesse nível de sofisticação.
Hoje, a SMIC — maior fabricante contratada de chips da China — é a única empresa chinesa capaz de operar com tecnologia de 7 nanômetros. A consolidação da Hua Hong nesse estágio é exatamente o cenário que Washington tenta evitar com as novas restrições.
O mercado reagiu com queda imediata. As ações de KLA, Lam Research e Applied Materials recuaram entre 4% e 6% após a Reuters noticiar as cartas. Os papéis da própria Hua Hong cederam 3,5% na mesma sessão.
Tensão diplomática às vésperas de cúpula Trump-Xi
As novas restrições chegam em momento politicamente sensível: Washington e Pequim se preparam para uma reunião entre Donald Trump e o presidente chinês Xi Jinping, prevista para maio, em Pequim. A ofensiva sobre a Hua Hong pode elevar as tensões bilaterais antes mesmo do encontro, adicionando mais uma camada de atrito a uma relação já marcada por disputas comerciais.
Para as empresas americanas, o custo financeiro pode ser expressivo. Fornecedores que abastecem fábricas chinesas em processo de expansão ou modernização tecnológica correm o risco de perder bilhões de dólares em vendas — especialmente aquelas que já tinham contratos em andamento com plantas em construção.
Do lado chinês, a Hua Hong poderá tentar substituir os equipamentos por alternativas de fornecedores estrangeiros não americanos ou por soluções de fabricantes locais. A viabilidade desse caminho, porém, depende do estágio atual da indústria doméstica de semicondutores, ainda distante das fronteiras tecnológicas dos líderes globais do setor.
Departamento de Comércio, Hua Hong, Lam Research, Applied Materials e KLA não responderam aos pedidos de comentário da Reuters até o momento da publicação.
