As exportações brasileiras ao Golfo Pérsico recuaram 31,47% em março de 2026, totalizando US$ 537,1 milhões. A guerra no Irã e os riscos crescentes no Estreito de Ormuz estrangularam a logística marítima, forçando navios a desviar pelo continente africano e elevar os custos de frete.
O agronegócio, responsável por cerca de 75% das vendas brasileiras à região, absorveu o maior impacto: milho praticamente parou de ser embarcado, enquanto açúcar, trigo e centeio registraram forte retração no período.
Os dados são do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), compilados na plataforma ComexStat. O recuo foi medido em relação a março de 2025 e reflete um fenômeno que analistas já apontavam como inevitável diante da escalada do conflito: o colapso logístico em torno do Estreito de Ormuz, uma das principais artérias do comércio marítimo mundial.
Grãos fora das rotas
Com o aumento do risco na área, companhias de navegação passaram a cobrar taxas adicionais e adotar trajetos alternativos — contornando a África para evitar Ormuz. O desvio amplia o tempo de viagem e encarece o frete, tornando inviável o embarque de commodities de margem estreita, como milho e trigo.
O milho praticamente zerou os embarques ao Golfo em março. Açúcar e melaços sofreram retração expressiva, e trigo e centeio não registraram embarques relevantes — uma ruptura que compromete a competitividade brasileira em mercados onde a demanda por alimentos cresce de forma consistente.
No setor de proteínas, os números setoriais revelam o tamanho do baque: para o Catar, a queda nas exportações de carne bovina chegou a 55,3% em março, enquanto os Emirados recuaram 49%. O levantamento completo sobre o tombo das exportações de carne e frango ao Golfo detalha o impacto por destino e por produto.
O frango permanece como o principal item exportado pelo Brasil à região — tanto em 2025 quanto no início de 2026 — e resistiu melhor à turbulência logística. A carne bovina mostrou resiliência de valor, puxada pela alta dos preços internacionais, não pelo aumento de volume embarcado.
O conflito também alterou o sentido do fluxo comercial. Diante das incertezas sobre a duração da guerra e das dificuldades no transporte marítimo, empresas brasileiras anteciparam compras de fertilizantes nitrogenados — insumos essenciais para a produção agrícola. Omã, Qatar, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos estão entre os principais fornecedores desses produtos ao Brasil.
Em março, as importações de fertilizantes nitrogenados vindos do Golfo cresceram mais de 265%, segundo o MDIC — um movimento preventivo de formação de estoques em resposta à incerteza geopolítica.
Respostas à crise
Diante do encarecimento das rotas, o Brasil havia buscado saídas antes mesmo do pico da crise: em março, firmou acordo com a Turquia para usar o país como corredor logístico ao Oriente Médio e contornar o fechamento de Ormuz. O acordo com Ancara abriu uma rota alternativa para o agronegócio brasileiro esquivar do bloqueio marítimo.
Após o tombo de março, o setor reagiu com abertura acelerada de mercados: em apenas 17 dias de abril, 29 produtos foram habilitados em nove países, incluindo Arábia Saudita e Jordânia. O movimento aponta para uma estratégia de diversificação de destinos para reduzir a exposição às rotas vulneráveis.
Para analistas do mercado financeiro, o conflito no Irã evidencia como fatores geopolíticos passaram a influenciar diretamente o comércio de commodities, pressionando seguros, alterando rotas logísticas e aumentando a volatilidade de preços — o que exige planejamento mais sofisticado das empresas exportadoras brasileiras.
