O Brasil deu por encerrada sua parte nas negociações comerciais com os Estados Unidos. O Itamaraty confirmou nesta quinta-feira (16) que a delegação brasileira respondeu a todos os questionamentos levantados por auxiliares do presidente Donald Trump no âmbito da investigação comercial aberta contra o país.
Foram dois dias de reuniões em Washington. Os americanos questionaram o Brasil sobre o PIX, o etanol, a propriedade intelectual e as políticas ambientais ligadas ao desmatamento. As respostas, segundo fontes diplomáticas, foram de natureza técnica e jurídica. As negociações continuam.
As reuniões desta quinta encerram dois dias de encontros em Washington iniciados na quarta-feira, quando as delegações sentaram pela primeira vez para discutir formalmente a investigação aberta com base na Seção 301 da Lei de Comércio dos Estados Unidos, de 1974 — um procedimento administrativo conduzido exclusivamente pelos americanos, sem caráter judicial e sem equivalência com os painéis da OMC.
A investigação foi instaurada em julho do ano passado. Na ocasião, a Casa Branca acusou o Brasil de adotar “há décadas” práticas econômicas desleais contra produtos americanos vendidos no mercado interno.
Do lado brasileiro, participaram representantes de quatro ministérios: Relações Exteriores, Indústria e Comércio, Justiça e Agricultura. Entre os diplomatas estavam Philip Fox Gough, secretário de Assuntos Econômicos do Itamaraty; Maurício Lyrio, secretário de Meio Ambiente do Itamaraty; e Tatiana Prazeres, secretária de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.
No entendimento do Itamaraty, todos os esclarecimentos já foram prestados. Cabe agora aos Estados Unidos decidir se precisam de novas informações antes de tomar alguma decisão. Um dos argumentos centrais da diplomacia brasileira é a própria balança comercial: os EUA exportam mais para o Brasil do que importam, o que contradiz a tese de práticas desleais. Como os americanos são o segundo maior parceiro comercial do país, atrás apenas da China, a orientação do governo é insistir nas negociações e buscar um acordo.
O questionamento sobre o PIX tem origem no Relatório de Estimativa do Comércio Nacional de 2026, publicado pela Casa Branca no início de abril, que classificou o sistema de pagamentos instantâneos como favorecimento estatal em detrimento de Visa e Mastercard.
A posição do governo sobre o PIX está definida e não é nova. Lula foi categórico ao responder ao relatório americano: o Brasil não vai aceitar mexer no sistema de pagamentos instantâneos criado pelo Banco Central. A ferramenta é tratada pelo governo como questão de soberania econômica, e o presidente repetiu essa posição em discursos públicos ao longo das últimas semanas.
Nas últimas semanas, os dois lados intensificaram o diálogo em múltiplos níveis. Lula e Trump conversaram pessoalmente e por telefone. O chanceler Mauro Vieira e o secretário de Estado americano, Marco Rubio, também mantiveram contato direto.
Paralelamente às negociações, o Congresso Nacional aprovou a Lei da Reciprocidade Econômica, que autoriza o Executivo a adotar medidas de proteção a produtos brasileiros caso o impasse não seja resolvido pela via diplomática. A lei funciona como sinalização, mas a postura oficial segue sendo a de buscar entendimento.
A relação entre os dois presidentes passou por uma virada em setembro, quando Lula e Trump se encontraram brevemente num corredor da sede da ONU, em Nova York — um encontro articulado por emissários diretos dos dois lados. Trump disse ter sentido “química” com o brasileiro. Desde então, segundo relatos, canais de comunicação que estavam travados voltaram a funcionar.
