Economia

Irã aperta cerco sobre rotas do petróleo e eleva risco de crise energética global

Com aliados posicionados nos dois estreitos estratégicos, Teerã converte gargalos marítimos em instrumentos de pressão geopolítica
Bloqueio Irã rotas petróleo: tráfego marítimo intenso no Estreito de Ormuz

O Irã intensificou a pressão sobre os principais corredores marítimos do comércio mundial, transformando três gargalos estratégicos — o Canal de Suez e os estreitos de Bab-el-Mandeb e de Ormuz — em pontos de tensão crescente.

Juntos, esses corredores respondem por cerca de um terço do fluxo global de petróleo. A escalada coloca em xeque um sistema que operou por décadas sob o princípio do livre comércio marítimo.

Ormuz: o jogo de bloqueio contra bloqueio

O Estreito de Ormuz concentra o principal foco de tensão. Desde que passou a ser alvo de operações militares dos EUA e de Israel, o Irã vem restringindo a passagem de embarcações na região — inclusive com cobrança de pedágios. O impacto já é concreto: apenas seis navios cruzaram o estreito em 24 horas, contra os cerca de 140 que transitam normalmente, com mais de 180 petroleiros retidos no Golfo Pérsico.

Em resposta, o presidente Donald Trump ameaçou atingir navios com ligação ao país. O que se desenha é um jogo de bloqueio contra bloqueio, elevando o risco sobre uma das rotas mais estratégicas do planeta para o transporte de petróleo. Em 13 de abril, os EUA anunciaram um bloqueio naval aos portos do Irã — escalada que levou o barril de Brent a ultrapassar US$ 100, aprofundando a pressão sobre cadeias globais de abastecimento.

Bab-el-Mandeb e o efeito dominó sobre o Canal de Suez

O segundo ponto de pressão é o Estreito de Bab-el-Mandeb, porta de entrada para o Mar Vermelho e, consequentemente, para o Canal de Suez — principal ligação marítima entre Europa e Ásia. A dependência entre as rotas é direta: se Bab-el-Mandeb é interrompido, Suez opera como um “refém logístico” do estreito ao sul.

A vulnerabilidade tem dimensão concreta. A Arábia Saudita investiu no Oleoduto Leste-Oeste (Petroline), com capacidade de transportar até 7 milhões de barris por dia, justamente para reduzir a dependência do Estreito de Ormuz. O desvio, porém, não elimina a exposição: o petróleo ainda precisa cruzar Bab-el-Mandeb para seguir em direção aos mercados europeus e asiáticos — desvia-se de um gargalo para cair em outro.

Já em março, o Irã havia sinalizado que poderia mobilizar os Houthis para bloquear também o Estreito de Bab-el-Mandeb, transformando os dois gargalos em instrumentos de pressão simultânea.

O ‘arco da resistência’ como ferramenta geopolítica

Embora não tenha controle direto sobre o Mar Vermelho, o Irã projeta influência na região por meio de aliados. No Iêmen, os Houthis — milícia treinada e financiada por Teerã — estão posicionados estrategicamente ao lado do Estreito de Bab-el-Mandeb, ampliando a capacidade de pressão iraniana sobre a rota.

“Os Houthis já fecharam o Estreito de Bab-el-Mandeb, não faz muito tempo, em resposta à guerra entre Israel e o Hamas. Foi necessária uma coalizão de dez países para reabrir o estreito”, afirma Vitelio Brustolin, professor de Relações Internacionais da UFF e pesquisador de Harvard.

Brustolin enquadra a estratégia iraniana como parte do chamado “arco da resistência” — estrutura que remonta à era do general Qasem Soleimani, morto no primeiro mandato de Trump, e que inclui também o Hezbollah no Líbano, o Hamas e a Jihad Islâmica na Palestina. Para o pesquisador, o grau de tensão atual é comparável a momentos críticos como o choque do petróleo de 1973, a Revolução Iraniana de 1979 e a Guerra do Golfo nos anos 1990.