O embaixador do Brasil no Irã, André Veras Guimarães, de 59 anos, acordou incontáveis vezes de madrugada com estrondos e tremor de paredes — e assistiu, da janela do seu apartamento em Teerã, a prédios sendo destruídos por bombardeios americanos e israelenses.
Em relato sobre as primeiras semanas do conflito, o diplomata resume a experiência em uma frase: “Guerra não é videogame.” Segundo o governo iraniano, os ataques já mataram mais de 3,5 mil pessoas no país.
No primeiro dia dos ataques — 28 de fevereiro —, um míssil americano destruiu a Escola Primária Shajareh Tayyebeh, na cidade de Minab. Morreram 175 pessoas, a maioria meninas. Questionado sobre o episódio, o presidente Donald Trump declarou: “Eu não sei nada sobre isso.”
O caso ilustra o que Veras chama de distância entre a narrativa de ataques precisos e cirúrgicos e a realidade no terreno. “Uma autoridade iraniana morta em um bombardeio leva consigo mais 15 pessoas, outros tantos feridos e muitas estruturas destruídas”, afirma.
O embaixador critica o uso do termo “dano colateral” — frequentemente invocado para ataques a alvos civis — como uma forma de “suavizar o impacto e humanizar a guerra”. “É muito importante pensar na normalização de certos atos que não queremos que aconteçam no nosso próprio país”, acrescenta.
Escolas e hospitais destruídos
Um levantamento do The New York Times, com base em imagens de satélite e verificação de vídeos, identificou danos a 22 escolas e 17 instituições de saúde desde o início do conflito. O número real pode ser ainda maior: a Sociedade do Crescente Vermelho Iraniano contabilizou, em 2 de abril, ao menos 763 escolas e 316 unidades de saúde danificadas ou destruídas.
A série de bombardeios foi interrompida em 7 de abril, quando Estados Unidos e Irã anunciaram um cessar-fogo de duas semanas, condicionado à reabertura do Estreito de Ormuz. Desde então, Teerã está em relativa calma — mas a apreensão persiste após o fracasso das negociações em Islamabad, no Paquistão.
“Os alvos mais cobiçados foram estruturas relacionadas ao Estado iraniano — instalações da Guarda Revolucionária ou delegacias de polícia”, descreve Veras. “Mas os bombardeios não têm nada de precisos, apesar de toda a tecnologia existente, de satélites a detectores de calor.”
A retórica do presidente americano aprofundou o terror entre a população. Dias antes da trégua, Trump ameaçou destruir pontes e usinas elétricas do Irã e, na véspera do cessar-fogo, publicou na rede Truth Social: “Uma civilização inteira morrerá hoje à noite.”
Para Veras, quando um chefe de Estado que comanda um arsenal nuclear faz esse tipo de declaração — em um cenário em que “as próprias autoridades americanas dizem que as regras não valem mais” —, a população visada interpreta como ameaça de crime de guerra ou genocídio. O efeito foi o oposto do pretendido: em vez de dividir os iranianos, a retórica gerou unidade. Manifestações pró-governo tornaram-se frequentes à noite nas ruas do país.
“As divergências existentes no Irã são ultrapassadas pelas ameaças externas. A reação natural é o país se juntar na sua própria defesa”, diz o embaixador.
Brasileiros no Irã
Veras foi nomeado ao cargo em 6 de junho de 2025 — sete dias antes do início da chamada Guerra dos 12 Dias, quando EUA e Israel atacaram instalações nucleares e militares iranianas. O Itamaraty já havia acionado sua rede consular na região para orientar os brasileiros que viviam no país. Dos cerca de 180 presentes antes dos ataques de fevereiro, entre 60 e 70 saíram por fronteiras terrestres — que permanecem abertas com Turquia, Armênia, Azerbaijão, Afeganistão e Paquistão.
A sociedade iraniana, forjada por décadas de sanções econômicas americanas, mostrou resiliência: supermercados nunca ficaram desabastecidos e o fornecimento de energia foi mantido. “Desde 28 de fevereiro, os iranianos agem com altivez e força”, afirma Veras.
