Mais da metade dos trabalhadores brasileiros não acredita que vai perder o emprego nos próximos seis meses — mas o grupo que teme essa possibilidade atingiu o maior patamar desde o início da série. É o que revela a décima edição dos Indicadores de Qualidade do Trabalho da FGV Ibre.
Os dados, referentes ao trimestre encerrado em março de 2026, mostram que 56,5% dos respondentes consideram muito improvável ou improvável perder sua principal fonte de renda. Outros 17,2% enxergam essa chance como provável ou muito provável — recorde histórico da pesquisa.
A sondagem é produzida pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre) e acompanha mensalmente a percepção da população em idade de trabalhar sobre suas condições de emprego. Os resultados são apurados por médias móveis trimestrais e cobrem trabalhadores formais e informais em todo o território nacional.
Para o economista Rodolpho Tobler, do FGV Ibre, os números traduzem um mercado de trabalho ainda aquecido, mas que começa a apresentar sinais claros de desaceleração. A confiança predominante entre os entrevistados estaria ancorada em um cenário macroeconômico que ainda sustenta a geração de vagas — mas por quanto tempo, é a questão.
O dado tem respaldo nos números recentes: no trimestre encerrado em fevereiro, a taxa de desemprego caiu ao menor patamar histórico para o mês, chegando a 5,8% — o que ajuda a explicar por que a maioria dos trabalhadores ainda se sente segura no posto.
No entanto, há sinais de alerta no horizonte. A criação de empregos formais em fevereiro foi a mais fraca desde 2023, com apenas 255,3 mil vagas — número que reforça a tese de desaceleração citada pelo economista e levanta dúvidas sobre a manutenção desse otimismo nos próximos meses.
Série jovem limita comparações históricas
Como a coleta de dados teve início em junho de 2025, a pesquisa ainda não dispõe de histórico suficiente para análises de longo prazo. Os relatórios atuais têm caráter mais descritivo, detalhando temas e quesitos a cada edição — e os próprios pesquisadores recomendam cautela nas comparações entre períodos, já que a série não passa por ajuste sazonal.
Ainda assim, o FGV Ibre defende que os indicadores já entregam uma fotografia relevante da percepção subjetiva dos trabalhadores, dimensão sistematicamente ausente nas estatísticas tradicionais de emprego, como a Pnad Contínua.
Entre os respondentes, 26,3% afirmaram não saber se correm risco de demissão nos próximos seis meses. Essa parcela expressiva pode refletir tanto incerteza sobre o cenário econômico quanto dificuldade de avaliar a própria estabilidade — especialmente entre trabalhadores informais ou em vínculos precários, que a sondagem também abrange.
A pesquisa cobre seis temas principais sobre qualidade do trabalho e é realizada mensalmente. Com a série ganhando maturidade ao longo de 2026, as próximas edições devem permitir leituras mais robustas sobre tendências e sazonalidade na percepção de segurança dos trabalhadores brasileiros.
