O governo dos Estados Unidos ordenou que um delegado da Polícia Federal brasileira deixe o país imediatamente. A autoridade atuava junto ao ICE — serviço de imigração americano — e é acusada de tentar contornar pedidos formais de extradição.
A medida foi divulgada nesta segunda-feira (20) pelo Escritório para Assuntos do Hemisfério Ocidental, que, sem citar nomes, denunciou tentativas de promover “perseguições políticas” em solo estrangeiro.
A TV Globo confirmou com a Embaixada do Brasil nos EUA que o agente expulso é o delegado Marcelo Ivo de Carvalho, diretamente ligado ao acompanhamento do caso de Alexandre Ramagem nos Estados Unidos.
O episódio marca um novo ponto de ruptura nas relações Brasil-EUA em torno do caso Ramagem. Condenado pelo STF a 16 anos de prisão por participar do núcleo central da trama golpista que tentou manter Jair Bolsonaro no poder, o ex-deputado saiu do Brasil de forma clandestina em 2025 — cruzando a fronteira de Roraima com a Guiana antes de chegar aos Estados Unidos.
Em 13 de abril, Ramagem foi detido pelo ICE em Orlando, na Flórida. A prisão foi resultado de meses de trabalho conjunto entre a PF e o ICE — cooperação que o governo Trump agora acusa de ter extrapolado os canais formais de extradição.
A soltura veio dois dias depois, sem comunicação prévia à Polícia Federal. A liberação sem aviso à PF expôs a ruptura na comunicação bilateral — e foi justamente essa lacuna que levou o delegado Marcelo Ivo a atuar de forma direta junto ao ICE, contornando os protocolos diplomáticos formais.
Brasil tenta acelerar deportação
Após a soltura, autoridades brasileiras começaram a preparar um relatório com informações e documentos para tentar acelerar a deportação de Ramagem. O Ministério da Justiça já havia encaminhado o pedido formal de extradição ao governo americano em janeiro de 2026, com documentação enviada pela Embaixada ao Departamento de Estado em 30 de dezembro de 2025.
O ICE informou à PF que Ramagem poderá aguardar em liberdade, nos EUA, a análise de um pedido de asilo — o que pode prolongar indefinidamente o processo de retorno ao Brasil.
Quatro dias antes da expulsão do delegado, Ramagem já havia agradecido publicamente à “mais alta cúpula da administração Trump” pela soltura — sinalizando o alinhamento político que tornou insustentável qualquer cooperação informal do Brasil com o ICE. Em vídeo publicado nas redes sociais, o ex-deputado afirmou que a liberação foi administrativa, sem procedimento judicial ou pagamento de fiança.
Quem é Alexandre Ramagem
Delegado da PF desde 2005, Ramagem ganhou notoriedade ao chefiar a segurança de Bolsonaro após o atentado em Juiz de Fora, na campanha de 2018. Na gestão bolsonarista, comandou a Agência Brasileira de Inteligência (Abin), alvo de investigações pelo uso ilegal da estrutura para monitorar adversários políticos — o caso conhecido como Abin Paralela.
Em 2020, Bolsonaro tentou nomeá-lo diretor-geral da PF, mas a nomeação foi suspensa pelo ministro Alexandre de Moraes, do STF, em razão da proximidade com a família presidencial. Eleito pelo PL-RJ em 2022 com cerca de 59 mil votos, teve o mandato cassado em dezembro do ano passado após a condenação criminal. Em 2024, disputou a Prefeitura do Rio de Janeiro e terminou a eleição em segundo lugar.
