Quatro das principais sociedades médicas do Brasil lançaram nota conjunta nesta quarta-feira (25) rebatendo vídeos virais que propagam a ideia de uma “epidemia de micropênis” no país. Não há nenhuma evidência científica que sustente a afirmação.
A Sociedade Brasileira de Urologia (SBU), a de Pediatria (SBP), a de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e a de Cirurgia Pediátrica (CIPE) são unânimes: o diagnóstico exige avaliação médica especializada, e o uso de hormônios sem indicação pode causar danos irreversíveis em crianças.
O que a ciência diz sobre micropênis
Um estudo apresentado no 40º Congresso Brasileiro de Urologia, em 2025, avaliou 99 crianças e não encontrou nenhum caso de micropênis. Mesmo assim, 24% dos pais acreditavam que o filho tinha desenvolvimento abaixo do normal — mesmo após exames médicos indicarem o contrário.
Na vida adulta, a condição é definida quando o comprimento do pênis em ereção está 2,5 desvios-padrão abaixo da média populacional. Na prática clínica, isso corresponde a menos de 7 centímetros em ereção. Estudos populacionais apontam que a média adulta gira em torno de 13 centímetros.
A incidência estimada é de cerca de 1,5 caso para cada 10 mil homens, segundo a Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos. Trata-se, portanto, de uma condição rara — não de uma epidemia.
As sociedades médicas reforçam que medições caseiras, além de imprecisas, podem induzir famílias a buscar tratamentos desnecessários ou prejudiciais à saúde das crianças.
Hormônios sem indicação médica representam risco real
O principal alerta das entidades é o uso indiscriminado de hormônios em crianças. As sociedades são categóricas: o tratamento hormonal só deve ser considerado em casos de micropênis verdadeiro, confirmados por avaliação especializada — frequentemente multidisciplinar.
Luiz Cláudio Gonçalves de Castro, coordenador do Departamento de Endocrinologia Pediátrica da SBEM, adverte que administrar hormônios a crianças sem diagnóstico rigoroso pode provocar efeitos adversos irreversíveis.
Outro ponto contestado pelas sociedades é a narrativa da “janela de oportunidade” rígida para o tratamento, amplamente disseminada nos vídeos virais. Para os especialistas, o conceito é apresentado de forma distorcida e simplificada, com potencial de levar famílias a decisões precipitadas e potencialmente prejudiciais ao desenvolvimento infantil.