Enquanto o secretário de Energia dos Estados Unidos, Chris Wright, garantia nesta segunda-feira (23) que os impactos da guerra no Oriente Médio sobre os preços do petróleo são “temporários”, os principais executivos do setor diziam o oposto.
A divergência veio à tona no CERAWeek, maior fórum mundial de energia, realizado em Houston até sexta-feira (27), com 10 mil participantes — e com a ausência notável dos líderes das gigantes Saudi Aramco e Adnoc, que cancelaram presença em razão do conflito.
Na abertura do evento, Wright tentou tranquilizar o auditório: “Estamos atravessando turbulências no curto prazo, mas as vantagens no longo prazo serão enormes”, disse. Ao canal CNBC, completou com apelo geracional: “Pensem nos próximos anos e décadas para vocês e seus filhos — vão ver um mundo muito melhor.”
A resposta do setor foi outra. O CEO da Chevron, Mike Wirth, avaliou que os mercados têm subestimado sistematicamente o impacto do conflito ao apostar em soluções rápidas que não se materializaram. “A Ásia, em particular, enfrenta preocupações reais em relação ao abastecimento”, alertou, acrescentando que mesmo após o fim das hostilidades “será preciso tempo para reconstruir as reservas” e reparar a infraestrutura danificada.
Patrick Pouyanné, CEO do grupo francês TotalEnergies, foi ainda mais direto: previu preços do gás “muito elevados até o verão” do hemisfério Norte caso o Estreito de Ormuz não seja reaberto — e alertou que a Europa precisará de grandes volumes para encher suas reservas antes do inverno.
Ausente fisicamente, o magnata Sultan Al-Jaber, diretor-geral da Adnoc, enviou mensagem de vídeo que soou como desafio ao tom de Washington. Ele classificou o bloqueio iraniano como “terrorismo econômico contra todos os países” e disse: “Não devemos permitir que nenhum país faça Ormuz refém, nem agora, nem no futuro.”
O ceticismo dos empresários tem respaldo nos números: desde o início do conflito, cerca de um quinto do fornecimento global de petróleo foi suspenso e o barril já ultrapassou US$ 90, com especialistas alertando que os efeitos devem durar meses mesmo após o fim das hostilidades. Na semana seguinte ao bloqueio, cerca de 300 petroleiros ficaram parados na região e o petróleo acumulou alta de quase 30% — perturbação que analistas do JPMorgan descrevem como muito além do risco geopolítico.
Trump negocia com Irã enquanto afrouxa sanções
Para tentar conter os preços internos, o governo adotou medidas que contradizem sua postura de linha-dura: suspendeu parte das sanções ao petróleo russo e iraniano — as mesmas ferramentas criadas para pressionar Moscou e Teerã. Em paralelo, Trump afirmou na Flórida estar negociando o fim das hostilidades com autoridades iranianas não identificadas, o que derrubou os preços do petróleo em cerca de 10%.
A pressão política é real: a alta nos postos de gasolina americanos, a poucos meses das eleições de meio de mandato, representa risco eleitoral direto. Dez dias antes do CERAWeek, o próprio governo Trump cogitava assumir o controle militar do Estreito de Ormuz enquanto o barril se aproximava de US$ 120 — cenário que torna as promessas de normalização rápida ainda mais difíceis de sustentar diante dos empresários do setor.
TotalEnergies abandona eólica e aposta no GNL americano
O encontro também foi palco de um negócio revelador: Washington anunciou reembolso de cerca de US$ 1 bilhão (R$ 5,2 bilhões) à TotalEnergies pela desistência de dois projetos de parques eólicos marinhos nos EUA. A gigante francesa vai reinvestir o valor em combustíveis fósseis, especialmente em gás natural liquefeito (GNL).
Pouyanné endossou a política energética de Trump ao afirmar que a energia eólica marinha “não é o método mais barato para produzir eletricidade” nos Estados Unidos. O secretário do Interior, Doug Burgum, foi mais incisivo: “Este governo acredita nas realidades energéticas, não nos fantasmas climáticos.”
Do lado de fora do fórum, cerca de 100 ativistas protestavam contra os danos da indústria. “A guerra no Oriente Médio está ligada ao petróleo. Pela primeira vez, aqueles que ostentam o poder são descaradamente honestos em relação a isso”, disse o médico aposentado Michael Crouch, 79.