O PT deu um passo decisivo na segunda-feira (16) ao aprovar uma resolução política que abandona a cautela do Planalto: o partido nomeia Flávio Bolsonaro como principal adversário de Lula em 2026 e classifica sua pré-candidatura como projeto “autoritário e antipopular”.
O documento, aprovado pela Comissão Executiva Nacional, marca uma virada de postura diante de pesquisas que indicam empate técnico entre o presidente e o senador fluminense — dado que acendeu o alerta na ala mais à esquerda do partido.
Pela primeira vez, o PT abandona as generalizações contra o bolsonarismo e mira diretamente no filho do ex-presidente, com linguagem de campanha eleitoral antecipada.
A resolução petista responde diretamente ao cenário que preocupa os dirigentes do partido. Pela primeira vez na série histórica da Quaest, Lula e Flávio Bolsonaro apareceram empatados no segundo turno, com 41% cada — resultado que coincidiu com o pior índice de aprovação do governo. Para a cúpula do PT, a agenda de entregas sociais, sozinha, não é suficiente para alavancar a intenção de voto do presidente.
Banco Master como munição eleitoral
Um dos pilares da nova ofensiva é o uso do escândalo envolvendo o Banco Master. O PT busca nacionalizar o caso, associando a expansão da instituição ao governo anterior de Jair Bolsonaro e à gestão de Roberto Campos Neto no Banco Central.
“Por que o Banco Central, então sob a gestão de Roberto Campos Neto, indicado por Bolsonaro, não tomou as medidas necessárias para intervir e proteger o sistema financeiro e os recursos públicos?”, questiona o documento.
Embora o banco tenha conexões históricas com o Centrão, o texto petista foca estrategicamente na “relação estreita” com parlamentares e governadores de extrema direita, citando doações de campanha e uso de aeronaves do dono da instituição por aliados da família Bolsonaro. O PT classifica o episódio como parte de “um sistema de relações promíscuas entre operadores políticos, interesses financeiros e setores do Estado”.
Congresso como campo de batalha
Para além da disputa presidencial, a resolução trata a conquista de bancadas no Legislativo como “condição fundamental” para a governabilidade. O texto acusa a influência do setor financeiro — rotulado de “Faria Lima” — de capturar parlamentares, travar pautas sociais e sustentar os juros altos, ligando diretamente o endividamento das famílias a esse poder.
“Eleger bancadas comprometidas com o povo brasileiro é condição fundamental para assegurar governabilidade, enfrentar o poder do rentismo e da extrema direita no Parlamento e aprofundar as transformações que o país necessita”, afirma o documento.
Nos bastidores, dirigentes petistas admitem que o foco no Congresso visa neutralizar dois riscos simultâneos: a possibilidade de derrota na disputa majoritária e, mesmo em caso de vitória, a incapacidade de governar diante de um Legislativo hostil.
O diagnóstico ganha contornos mais nítidos quando se observa que quase metade do eleitorado enxerga tanto Lula quanto Flávio Bolsonaro como radicais — simetria que ajuda a explicar por que a cúpula petista concluiu que o discurso de entregas positivas, sem confronto direto, não move o eleitor no centro do espectro.
O reposicionamento ocorre num contexto em que toda a esquerda se reorganiza para 2026. O PSOL aprovara apoio a Lula já no primeiro turno com o argumento de que derrotar a extrema direita exige unidade — mas recusou formalmente a federação com o PT, sinalizando os limites do alinhamento entre as siglas.
A resolução classifica como “questão de sobrevivência” a eleição de uma maioria democrática e popular no Congresso. É a admissão tácita de que o projeto petista para um eventual segundo mandato de Lula depende tanto das urnas de outubro quanto da composição que vai ocupar as cadeiras do Parlamento a partir de fevereiro de 2027.