O governo dos Estados Unidos discute internamente classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras. A medida preocupa o Itamaraty, que trabalha nos bastidores para frear a decisão antes que ela afete a soberania e a economia brasileiras.
A tensão se insere num contexto mais amplo: nos últimos meses, Washington intensificou ações militares e de inteligência contra grupos narcoterroristas em pelo menos três países latino-americanos, abrindo precedente para uma postura mais agressiva na região.
No fim de 2025, navios, caças e drones americanos bombardearam embarcações no mar do Caribe, matando ao menos 100 pessoas entre venezuelanos e colombianos. No México, a inteligência dos EUA colaborou para eliminar o líder do maior cartel de drogas do país. O padrão sinaliza uma doutrina mais intervencionista da Casa Branca na América Latina.
Facções brasileiras no radar de Washington
O Departamento de Estado americano já declarou oficialmente que enxerga PCC e CV como ameaças de alcance regional. O governo Lula rejeita o rótulo: a Lei Antiterrorismo brasileira exige motivação política — não econômica — para que uma organização seja classificada como terrorista, argumento central usado pela diplomacia para contestar a iniciativa americana.
A preocupação de Brasília tem respaldo em dados: um levantamento inédito do Ministério Público de São Paulo revelou que o PCC está instalado em ao menos 28 países, com mais de 2 mil integrantes fora do Brasil — número que ajuda a explicar por que Washington passou a tratar a facção como ameaça global, e não apenas doméstica.
O crescimento das facções brasileiras nas últimas décadas foi acompanhado de uma expansão internacional que conecta o tráfico nacional às rotas do crime organizado transnacional. CV e PCC, originalmente rivais, consolidaram estruturas com ramificações que ultrapassam as fronteiras do país.
O que está em jogo para o Brasil
A designação como organização terrorista estrangeira abriria caminho para sanções financeiras e criaria base legal para operações militares dos EUA contra as facções — mecanismo já acionado contra alvos na Venezuela durante o segundo mandato de Trump.
Para o Brasil, as consequências vão além do campo militar. Empresas e bancos com operações nos dois países poderiam enfrentar restrições de compliance, com impacto direto no fluxo de negócios e nas relações comerciais Brasil-EUA.
O comentarista Octavio Guedes, da GloboNews, avalia que os reais interesses americanos na pauta de segurança pública brasileira não se limitam ao combate ao narcotráfico. A classificação terrorista funcionaria também como instrumento de pressão diplomática — ampliando a margem de influência de Washington sobre decisões internas do país.
O debate expõe uma tensão estrutural: como o Brasil deve reagir quando a agenda de segurança de uma potência estrangeira colide com sua soberania jurídica e territorial.