Uma inteligência artificial consegue prever o risco de infarto e AVC em mulheres a partir de mamografias de rotina. O achado é de um estudo da Sociedade Europeia de Cardiologia, publicado no European Heart Journal.
A ferramenta avalia depósitos de cálcio nas artérias da mama — visíveis nos raio-X, mas normalmente ignorados na triagem oncológica.
A pesquisa acompanhou 123.762 mulheres sem diagnóstico cardiovascular prévio e abre caminho para rastrear doenças do coração em um exame que já existe na rotina médica.
Como a IA lê sinais cardíacos em exames de mama
Mamografias são feitas para detectar tumores, mas capturam também a calcificação arterial das mamas — acúmulo de cálcio nas artérias do tecido mamário sem qualquer relação com câncer. Estudos anteriores já apontavam essa calcificação como marcador de risco cardiovascular, mas o dado raramente era aproveitado na prática clínica.
O grupo liderado por Hari Trivedi, da Emory University, foi além: treinou um modelo de IA para classificar automaticamente o grau de calcificação — grande, moderado, leve ou ausente — e cruzou esses dados com eventos cardiovasculares reais das participantes.
Os resultados mostraram que quanto maior o acúmulo de cálcio identificado pela IA, maior o risco de AVC, infarto e morte por causa cardiovascular. A relação se manteve mesmo após descontar fatores como diabetes e tabagismo.
O efeito foi observado inclusive em mulheres com menos de 50 anos — grupo tipicamente classificado como de baixo risco cardiovascular —, o que amplia significativamente o alcance potencial da ferramenta.
Da triagem oncológica ao diagnóstico cardíaco
Para Trivedi, o valor da pesquisa está em transformar um dado já coletado — mas sistematicamente ignorado — em informação clínica útil. A detecção do cálcio pela mamografia já era conhecida; o desafio era usá-la de forma automatizada para antecipar doenças do coração.
Os pesquisadores enxergam no método uma maneira prática de identificar mulheres em risco cardiovascular que hoje passam despercebidas nos sistemas de saúde, sem nenhum custo adicional de exame.
Para viabilizar o uso clínico, será necessário integrar a ferramenta de IA aos sistemas de imagem já existentes e criar protocolos de notificação para pacientes e médicos. O grupo planeja ainda um ensaio clínico para validar as próximas etapas da tecnologia.
Se confirmada em larga escala, a abordagem pode ampliar o rastreamento cardiovascular feminino aproveitando um exame que milhões de mulheres já realizam anualmente — sem etapas extras no fluxo de atendimento.