Uma esteira equipada com inteligência artificial consegue identificar sinais precoces de Alzheimer e Parkinson muito antes de um diagnóstico clínico convencional. O dispositivo, criado por pesquisadores da Universidade de Caen, na França, avalia o padrão de marcha do paciente enquanto ele enfrenta estímulos cognitivos simultâneos.
Quando o sistema detecta a síndrome do risco cognitivo motor, a probabilidade de a pessoa desenvolver transtornos neurocognitivos graves triplica. Cem pacientes entre 55 e 87 anos já passaram pelo teste.
O projeto se chama Présage — “presságio” em francês — e foi lançado em 2019 no laboratório de realidade virtual da Universidade de Caen, o CIREVE. A iniciativa combina realidade virtual, biomecânica e algoritmos de machine learning para mapear o que os pesquisadores chamam de perfil locomotor do paciente.
Como funciona o dispositivo
A esteira, instalada em uma sala de 15 metros por 9, adapta seu ritmo ao do paciente e conta com duas plataformas de força que captam a chamada força de reação do solo — dados que revelam equilíbrio dinâmico e coordenação motora. O equipamento também pode se inclinar em diferentes eixos, exigindo mais recursos cognitivos do participante.
Durante o exame, o paciente caminha primeiro em velocidade constante e depois em ritmos alternados com cada perna, enquanto responde a estímulos cognitivos. Pontos semelhantes a eletrodos captam ângulos das articulações e o tempo de elevação de cada perna. A voz e o tempo de reação também são registrados.
“A caminhada define um perfil locomotor, que é um reflexo do nosso estado estrutural. Isso traz informações sobre uma patologia, uma pessoa e até mesmo sobre suas emoções”, explicou o pesquisador Baptiste Perthuy.
O alvo: a síndrome MCR
A síndrome do risco cognitivo motor (MCR) combina lentidão da marcha com queixas cognitivas subjetivas. Dos cem voluntários testados, 20 apresentavam essa condição. Para traçar o perfil locomotor específico da MCR, a equipe comparou esses casos com dados de indivíduos saudáveis usando modelos de inteligência artificial.
O pesquisador Julien Rossato destaca que o exame também mede a reserva cognitiva — a capacidade do cérebro de se adaptar ao envelhecimento —, que pode se esgotar com os anos ou declinar com o surgimento de doenças neurodegenerativas.
A versão laboratorial já está sendo adaptada para uso clínico. A startup francesa a-gO desenvolveu um sistema compacto que usa três iPhones para filmar o paciente durante cinco minutos numa esteira comum. A inteligência artificial gera então um modelo 3D da marcha e identifica marcadores da síndrome MCR.
“A meta era desenvolver uma ferramenta capaz de detectar precocemente pessoas com risco de desenvolver doenças neurodegenerativas. Nesse estágio, ainda temos todos os neurônios e a reserva cognitiva”, afirmou Alexandre Dalibot, cofundador da a-gO.
O sistema deverá ser testado em centenas de pacientes de hospitais franceses e pode chegar a consultórios médicos do país em até dois anos. A etapa seguinte prevê associar as variáveis locomotoras a testes neurocognitivos e questionários sociais para refinar os perfis de risco individuais.
Enquanto pesquisadores franceses avançam na detecção precoce do Parkinson, cientistas do MIT e de Cambridge já usam IA para buscar tratamentos capazes de frear a progressão da doença — campo que permanece sem solução há mais de 150 anos. Saiba como a IA acelera a descoberta de remédios para doenças sem cura.