O presidente Donald Trump reuniu líderes conservadores da América Latina na Flórida neste sábado (7) para lançar a cúpula “Escudo das Américas” — coalizão militar voltada ao combate aos cartéis de drogas.
Ao menos uma dúzia de chefes de Estado participou do encontro, incluindo o argentino Javier Milei, o salvadorenho Nayib Bukele e o presidente eleito do Chile, José Antonio Kast. O brasileiro Lula não foi convidado.
Trump assinou uma proclamação formalizando a coalizão e nomeou Kristi Noem — demitida do cargo de secretária de Segurança Interna nesta semana — como enviada especial da iniciativa.
Alinhamento ideológico e o modelo Bukele
A cúpula reuniu líderes que compartilham a visão linha-dura sobre crime e migração — favorecendo repressão em vez de reformas sociais e o setor privado em detrimento do Estado. Além de Milei, Bukele e Kast, participaram o hondurenho Nasry Asfura e o equatoriano Daniel Noboa, que já anunciou operações militares conjuntas com os EUA no combate ao narcotráfico.
Bukele tornou-se referência para parte da direita regional: sua “mega-prisão” foi visitada por políticos de toda a América Latina e os EUA deportaram mais de 200 venezuelanos para lá no ano passado, sem julgamento. Dois dias antes da cúpula em Doral, o assessor Stephen Miller já reunia líderes militares latino-americanos em Washington com a mesma mensagem: cartéis de drogas só podem ser derrotados com poder militar — doutrina que agora ganha forma institucional no Escudo das Américas.
Captura de Maduro como argumento fundador
Trump vem citando os cartéis como principal justificativa para ampliar a presença dos EUA na América Latina. Em janeiro, seu governo capturou o presidente venezuelano Nicolás Maduro — caso que serve de argumento central para a nova coalizão. O desdobramento mais concreto dessa captura foi o restabelecimento das relações diplomáticas entre EUA e Venezuela, formalizadas esta semana.
China na mira e tensão no Oriente Médio
A cúpula ocorreu em um momento delicado para Trump. O encontro foi realizado enquanto o presidente ainda lidava com as consequências dos ataques ao Irã — conflito que elevou os preços do petróleo e que, segundo analistas, pode escapar de seu controle total.
Ao mesmo tempo, o governo americano tenta reverter décadas de expansão chinesa na região. Segundo Ryan Berg, do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, o comércio da China com a América Latina atingiu recorde de US$ 518 bilhões em 2024, com Pequim emprestando mais de US$ 120 bilhões a governos do hemisfério ocidental.
A influência de Pequim vai de estações de rastreamento por satélite na Argentina a um porto no Peru, passando pelo suporte econômico à Venezuela. Trump se prepara para conversar com Xi Jinping em Pequim no final de março — e quer apresentar a coalizão como contrapeso a esse avanço, reposicionando governos conservadores da região em torno de Washington.