O banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do extinto Banco Master, foi preso preventivamente nesta quarta-feira (4) por ordem do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal.
É a segunda vez que Vorcaro é detido pela Operação Compliance Zero, da Polícia Federal — desta vez com indícios de que liderava uma organização criminosa com braço armado, corrupção de servidores do Banco Central e interferência em decisões regulatórias.
A decisão também determinou o bloqueio de R$ 22 bilhões em bens e o afastamento de servidores do BC com uso de tornozeleira eletrônica.
Do CDB sem lastro ao colapso financeiro
Fundado em 1974 como Máxima Corretora, o conglomerado cresceu ao oferecer CDBs com rendimentos muito acima do mercado — estratégia que encobria uma grave crise de insolvência. Em 18 de novembro de 2025, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial de sete instituições do grupo, incluindo Will Bank, Letsbank e Banco Pleno.
As investigações apontam emissão de cerca de R$ 50 bilhões em CDBs sem lastro, por meio de créditos fictícios da empresa Tirreno. A primeira prisão de Vorcaro ocorreu em Guarulhos, quando tentava deixar o país, mas ele foi solto por decisão do TRF-1.
A segunda detenção tem uma fonte inesperada: o próprio Banco Central havia aberto uma sindicância interna contra dois de seus servidores no fim de 2025 — apuração que a PF usou diretamente como insumo para decretar a prisão preventiva de Vorcaro. Os dois funcionários são agora alvo da CGU, suspeitos de vazar informações sigilosas ao banqueiro e receber propina em troca de orientações sobre supervisão bancária.
Tentativa frustrada do BRB
Em março de 2025, o Banco de Brasília (BRB) tentou adquirir 58% do Master por cerca de R$ 2 bilhões. O Banco Central barrou a operação em setembro por falta de documentos que comprovassem viabilidade econômica. O fracasso gerou perdas ao patrimônio público do DF e forçou o governador Ibaneis Rocha a propor transferência de imóveis públicos ao BRB para recompor o caixa. O BC ainda exigiu R$ 3 bilhões adicionais de reserva.
Clientes bloqueados e rombo no FGC
A liquidação das sete instituições deixou milhões de clientes com saldos bloqueados. O FGC assumiu o ressarcimento, mas o volume de saques drenou quase um terço do seu caixa, antes estimado em cerca de R$ 140 bilhões. Fundos de pensão de servidores públicos que aplicaram quase R$ 2 bilhões no grupo aguardam na fila sem proteção do fundo. O FGC estuda medidas para recompor seu patrimônio e preservar a estabilidade do sistema financeiro.
A organização criminosa investigada não se limitava a fraudes financeiras. A chamada ‘A Turma’ contava com um líder operacional conhecido como ‘Sicário’ e um policial federal aposentado no núcleo de coerção — estrutura usada para intimidar opositores e pressionar reguladores, segundo a decisão do STF.
Toffoli sai, Mendonça assume
Até fevereiro de 2026, o ministro Dias Toffoli era relator do caso no STF. Questionamentos sobre sua empresa familiar, a Maridt Participações — que realizou negócios com fundo ligado à Reag Investimentos, grupo relacionado ao Master —, e menções ao seu nome nas mensagens do celular de Vorcaro levaram à redistribuição do inquérito por “interesse institucional”.
André Mendonça assumiu a relatoria e, em sua primeira grande decisão, autorizou a prisão preventiva de Vorcaro, o bloqueio de R$ 22 bilhões em bens e o afastamento de servidores do BC com tornozeleira eletrônica.