O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, implementou uma nova fase do neoliberalismo centrada no mercado interno, segundo o economista sérvio-americano Branko Milanovic. Tarifas protecionistas e reformas tributárias estão no centro do debate sobre desigualdade e poder econômico global.
Milanovic destaca que a América Latina, especialmente o Brasil, reduziu a desigualdade nos últimos 20 anos, enquanto avalia os riscos e benefícios da reforma do Imposto de Renda em discussão no Congresso brasileiro.
Tarifas protecionistas e reações empresariais
Trump anunciou tarifas de 25% a 100% sobre produtos farmacêuticos, móveis e caminhões pesados, com vigência a partir de 1º de outubro. Empresas asiáticas exportadoras viram suas ações caírem, enquanto grandes farmacêuticas com investimentos nos EUA se sentiram protegidas. Empresários e representantes de setores afetados pressionaram o governo americano, alertando para impactos negativos aos consumidores. Essa mobilização empresarial também facilitou a aproximação entre Trump e o presidente brasileiro Lula.
Desigualdade, reforma tributária e resistência
Milanovic ressalta que a América Latina foi exceção ao reduzir a desigualdade nas últimas décadas, com destaque para o Brasil, onde o coeficiente de Gini caiu de 60 para cerca de 48. Ele avalia que a proposta de taxação dos super-ricos pode diminuir ainda mais a desigualdade brasileira, embora haja temor de fuga de capitais. Segundo o economista, “não há qualquer dúvida de que a reforma reduziria a desigualdade”. Milanovic observa que a resistência dos mais ricos é esperada, pois políticas redistributivas afetam diretamente esse grupo, que exerce influência na mídia e no debate público.
A reforma do IR prevê isenção para rendas até R$ 5 mil e desconto parcial até R$ 7,35 mil. Para compensar, o governo propõe tributar progressivamente quem ganha mais de R$ 600 mil por ano e taxar lucros e dividendos acima de R$ 50 mil mensais, inclusive enviados ao exterior. O projeto teve urgência aprovada, mas a votação foi adiada devido à tramitação da “PEC da Blindagem”.
Perspectiva histórica sobre desigualdade
No livro Visões da desigualdade: Da Revolução Francesa até o fim da Guerra Fria, Milanovic analisa como autores clássicos abordaram a distribuição de renda e destaca a importância de considerar estrutura de classes e elites. Ele aponta que a economia neoclássica ignorou a desigualdade por motivos políticos e mudanças metodológicas, especialmente durante a Guerra Fria.
Ascensão da Ásia e impactos globais
No próximo livro The Great Global Transformation, Milanovic discute como o crescimento econômico da Ásia, especialmente da China, redesenhou o topo da renda global. Isso levou à insatisfação das classes médias em países desenvolvidos, à eleição de Trump e a instabilidades na Europa. O economista explica que a redistribuição do poder econômico global afeta tanto a estabilidade geopolítica quanto a interna dos países.
Neoliberalismo doméstico versus internacional
Milanovic diferencia o neoliberalismo doméstico de Trump, marcado por desregulamentação e redução de impostos, do mercantilismo na política externa, com tarifas protecionistas. Ele argumenta que Trump mantém políticas neoliberais internamente, mas rompe com o neoliberalismo internacional.
Independência do Banco Central e confronto com o Fed
O economista explica que a independência do Banco Central foi um projeto neoliberal para proteger o capital de políticas populistas. Trump, porém, adota postura otimista ao buscar controle sobre o Fed, acreditando em sua permanência no poder. Milanovic vê essa diferença como ideológica entre neoliberais pessimistas e otimistas.
Relevância das tarifas para países emergentes
Milanovic considera que tarifas elevadas podem impactar economias como Índia e Brasil, mas avalia que seus efeitos sobre a desigualdade global são limitados e sujeitos a mudanças rápidas na política comercial americana.