A Polícia Federal confirmou nesta segunda-feira (15) que seis quadros apreendidos em São Paulo durante a Operação Cambota, contra a chamada “máfia do INSS”, são de Di Cavalcanti e Tomie Ohtake.
As obras, recolhidas em imóveis ligados aos investigados, podem valer milhões e reforçam suspeita de lavagem de dinheiro com arte. A operação apura fraudes que somam R$ 6,3 bilhões em descontos ilegais de aposentados.
Obras de arte e avaliação dos especialistas
Durante a operação realizada na sexta-feira (12), a Polícia Federal recolheu quadros, esculturas e obras de arte em imóveis de investigados por fraudes no INSS. Segundo a PF, cinco das obras seriam de Portinari, artista central do modernismo brasileiro. Uma obra de Tomie Ohtake, reconhecida pelo abstracionismo lírico, também integra o acervo apreendido.
Peritos em arte e museologia, consultados pelo g1, analisaram imagens das apreensões e indicaram que parte das pinturas pode pertencer a artistas consagrados como Cândido Portinari, Orlando Teruz e Dario Mecatti. A autenticidade, porém, só poderá ser confirmada por perícia especializada. Obras de Portinari podem alcançar valores entre R$ 3 milhões e R$ 5 milhões, dependendo do porte e da fase de produção, segundo Suzana Pirani Meyer Castilho Garcia, perita da Associação dos Peritos Judiciais do Estado de São Paulo.
O acervo inclui ainda esculturas de Flory Gama, estátuas de bronze como uma reprodução de “O Pensador” de Auguste Rodin e peças assinadas por Bruno Zach. Entre as esculturas, há imagens de leões e tigre, incluindo uma assinada por Thomas Cartier. Especialistas estimam que estátuas de maior porte podem valer entre R$ 3 mil e R$ 8 mil.
Processo de autenticação das obras
A identificação das obras envolve análise visual com diferentes tipos de luz, microscopia da pincelada, exame do suporte e chassis, além de análise química dos pigmentos por técnicas como fluorescência de raios-x e espectroscopia Raman.
Detalhes da Operação Cambota e esquema investigado
A Operação Cambota investiga um esquema de fraudes e desvios de aposentadorias e pensões do INSS, com prejuízo estimado em R$ 6,3 bilhões entre 2019 e 2024. Associações e entidades cadastravam beneficiários sem autorização, usando assinaturas falsas para descontar mensalidades dos pagamentos do INSS. Muitas vezes, idosos eram associados sem saber, e havia registros de múltiplas filiações no mesmo dia, evidenciando fraudes.
Segundo a PF e a CGU, o grupo oferecia propina a servidores do INSS para obter dados de beneficiários e facilitar descontos indevidos. Associações de fachada, presididas por idosos ou pessoas de baixa renda, eram usadas para viabilizar os desvios. A investigação começou na CGU em 2023 e, em 2024, a PF foi acionada após indícios de crimes.
Mandados e defesa dos investigados
Foram cumpridos dois mandados de prisão preventiva e 13 de busca e apreensão em São Paulo e no Distrito Federal, expedidos pelo ministro do STF André Mendonça. Entre os investigados está Maurício Camisotti, apontado como sócio oculto de entidade beneficiada pelas fraudes. Sua defesa alega não haver justificativa para a prisão e denuncia arbitrariedade na ação policial. A defesa do advogado Nelson Wilians afirma que sua relação com um dos investigados é estritamente profissional e legal, e que ele colabora com as autoridades, reafirmando compromisso com a legalidade.
Outro alvo, Antunes, é apontado como lobista e facilitador do esquema, tendo transferido R$ 9,3 milhões a pessoas ligadas a servidores do INSS. O então presidente do INSS, Alessandro Stefanutto, foi demitido após a revelação da fraude em abril.