Pequenos produtores brasileiros enfrentam perdas e incertezas um mês após a imposição da tarifa de 50% por Donald Trump sobre produtos nacionais exportados aos EUA.
Exportadores de café, mel e uva relatam cancelamento de contratos, queda nos preços e dificuldades para encontrar novos mercados, afetando diretamente o faturamento e o emocional dos empresários.
Impactos imediatos sobre exportadores brasileiros
A sobretaxa de 50% aplicada pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros completou um mês neste sábado (6), trazendo consequências para produtores de diferentes regiões do Brasil. A empresária Daniele Alkmin, de Santa Rita do Sapucaí (MG), viu contratos fechados para envio de dois contêineres de café serem cancelados por importadores americanos, que representavam 30% do seu faturamento anual. Ela relata que o cliente sugeriu dividir os custos da tarifa, mas a proposta foi inviável devido à baixa margem de lucro. “Não é justo. O imposto de importação é do importador, não do exportador”, desabafa Daniele.
Além disso, Daniele lamenta o investimento de anos em viagens e prospecção de clientes nos EUA, que agora buscam café de outros países, como Vietnã e Colômbia. Ela também destaca o vínculo pessoal criado com os compradores norte-americanos, tornando a situação ainda mais dolorosa. A empresária só soube tardiamente que poderia ter evitado a taxa se tivesse embarcado o café até 6 de agosto.
Produtores de mel e uva também sofrem prejuízos
O apicultor Joaquim Rodrigues, de Cipó (BA), relata que as exportadoras passaram a pagar cerca de 18% menos pelo mel devido ao tarifaço. “Antes, vendíamos o quilo por cerca de R$ 17. Agora, vendemos por R$ 14”, afirma. Rodrigues, presidente da Associação dos Apicultores de Cipó, espera apoio do governo federal, que anunciou compras via Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), mas ainda há dúvidas sobre a execução dessas medidas.
No Vale do São Francisco (PE), o produtor de uva Jailson Lira vive incerteza sobre o valor que receberá dos EUA, que representa 40% de seu faturamento. O preço é definido apenas quando a fruta chega ao destino, e Jailson teme que o mercado interno não absorva toda a oferta caso todos os produtores redirecionem suas vendas.
Busca por novos mercados e desafios futuros
Com o cancelamento dos contratos nos EUA, Daniele Alkmin tenta ampliar sua atuação em mercados como Noruega, Dubai, Hong Kong, Japão e Irlanda. Ela já enviou amostras para empresas norueguesas e de Dubai, mas ressalta a urgência de fechar negócios até outubro para garantir a venda como café especial, já que o produto perde qualidade com o tempo.
Joaquim Rodrigues destaca a dependência das exportações devido ao baixo consumo de mel no Brasil, e que cerca de 80% do mel exportado vai para os Estados Unidos. Embora sua produção seja monitorada para certificação orgânica pelas exportadoras, ele aguarda orientações do governo sobre como integrar as iniciativas de compra pública.
Jailson Lira, por sua vez, reforça que os EUA são excelentes clientes e que a perda desse mercado representa uma grande oportunidade desperdiçada. Ele busca alternativas, mas alerta para a dificuldade do mercado nacional absorver toda a produção redirecionada.