O governo Lula enfrenta atualmente impasses diplomáticos com Estados Unidos, Israel e Venezuela, envolvendo temas como tarifas comerciais, eleições e conflitos internacionais.
Desde janeiro de 2023, Lula tem priorizado a política externa, mas os atritos recentes evidenciam desafios na condução das relações bilaterais e na busca por protagonismo internacional.
Panorama dos conflitos diplomáticos
As relações entre Brasil e Israel foram “rebaixadas” após o Brasil ignorar a indicação de um novo embaixador israelense, reflexo do clima tenso desde que Lula comparou ações em Gaza ao regime nazista. O presidente brasileiro também acusou o governo de Israel de promover “genocídio” de palestinos, sendo declarado “persona non grata” e alvo de críticas do ministro da Defesa israelense.
Com a Venezuela, Lula e Nicolás Maduro, aliados históricos, não se falam há cerca de um ano. O distanciamento ocorreu após Lula cobrar a divulgação das atas eleitorais do pleito de 2024, questionadas pela oposição venezuelana. O governo Maduro reagiu negativamente, proibindo a divulgação e reforçando a reeleição de Maduro.
Nos Estados Unidos, o atrito envolve questões comerciais e políticas. O presidente americano Donald Trump impôs tarifa de 50% sobre produtos brasileiros e abordou a situação jurídica do ex-presidente Jair Bolsonaro, considerado por Trump alvo de “caça às bruxas”. Lula recusa discutir temas internos do Brasil com Trump, defendendo a soberania nacional.
Diplomacia presidencial e estratégias
Lula tem adotado a chamada diplomacia presidencial, envolvendo-se diretamente em negociações, como nos diálogos com Vladimir Putin e Volodymyr Zelensky e nas articulações com países do Brics. No entanto, segundo o professor Amâncio Jorge, da USP, o Brasil perdeu protagonismo regional e internacional ao tentar mediar conflitos para os quais não tem estrutura.
O governo brasileiro cobra acordos já firmados: do Acordo de Barbados na Venezuela, negociações sobre o tarifaço nos EUA e a entrada de ajuda humanitária em Gaza, além de defender cessar-fogo permanente entre Israel e Hamas.
Semelhanças e diferenças entre os atritos
Semelhanças
Nos três casos, líderes não têm mantido contato direto, e os países envolvidos dirigiram ataques ao Brasil, inclusive disseminando informações falsas. O governo brasileiro cobra cumprimento de acordos e negociações, acionando organismos internacionais como a OMC e pressionando por transparência eleitoral e ajuda humanitária.
Diferenças
As origens dos atritos variam: nos EUA, o foco é comercial e político, com componentes diplomáticos; em Israel, a tensão é essencialmente diplomática após declarações de Lula; na Venezuela, a origem é política, relacionada ao processo eleitoral.
As respostas diplomáticas também diferem. Com os EUA, ministros brasileiros tentam negociar com assessores de Trump, mas sem interlocutores diretos da Casa Branca. Em Israel, a ausência de embaixadores evidencia o distanciamento. Na Venezuela, a quebra de confiança levou ao retorno do embaixador venezuelano.
Consequências e perspectivas
Os efeitos práticos incluem a implementação parcial do tarifaço americano e sanções a ministros do STF. O professor Amâncio Jorge avalia que o tom mais duro de Lula pode fortalecer sua imagem interna, mas dificulta negociações externas. O cenário atual reflete uma política externa brasileira mais assertiva, porém com limitações de influência e desafios de reposicionamento internacional.