A tarifa de 50% sobre produtos brasileiros anunciada por Trump pode entrar em vigor em 1º de agosto, afetando fortemente o comércio exterior do Brasil. Os EUA são o segundo maior destino das exportações nacionais, atrás apenas da China. Caso não haja acordo entre Lula e Trump, setores importantes precisarão buscar alternativas para escoar sua produção.
Especialistas apontam que Índia, Indonésia, África, Oriente Médio e União Europeia podem absorver parte dos produtos, mas desafios permanecem para itens de maior valor agregado.
Impacto nos principais produtos exportados
Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), os principais produtos brasileiros exportados para os EUA são óleos brutos de petróleo ou de minerais betuminosos (US$ 2,37 bilhões), produtos semimanufaturados de ferro ou aço de baixo carbono (US$ 1,49 bilhão), café não torrado e não descafeinado (US$ 1,16 bilhão), carnes bovinas desossadas e congeladas (US$ 737,8 milhões), ferro-gusa (US$ 683,6 milhões), celulose (US$ 668,6 milhões) e óleos combustíveis e preparações de petróleo (US$ 610,2 milhões) de janeiro a junho de 2025.
Produtos como suco de laranja e aeronaves também têm relevância. Na safra 2024/25, 41,7% das exportações brasileiras de suco de laranja foram para os EUA. No setor aeronáutico, segundo relatório do BTG, 63% das exportações nacionais tiveram como destino o país norte-americano, com destaque para a Embraer.
Facilidade de redirecionamento e desafios
De acordo com Welber Barral, consultor em comércio internacional, commodities como café, suco de laranja e açúcar podem ser redirecionadas mais facilmente, pois possuem preços internacionais. “Commodity com preço internacional acaba sendo vendida para vários outros lugares, dependendo de demanda”, afirma Barral. Já produtos de maior valor agregado, como autopeças específicas, enfrentam dificuldades para encontrar novos mercados.
A Embraer, por exemplo, tem 23,8% de sua receita proveniente das vendas para os EUA, segundo a XP Investimentos. “Ninguém vende tanto avião executivo nos EUA como a Embraer”, destaca André Galhardo. Mesmo para a China, transferir essa demanda é considerado difícil.
Destinos alternativos e oportunidades
Jackson Campos, especialista em comércio exterior, ressalta que países como China, Índia, Vietnã, Indonésia, Emirados Árabes Unidos, México e nações europeias podem absorver parte da produção, mas nenhum substitui o mercado americano integralmente. A China, maior parceiro comercial do Brasil, enfrenta desaceleração e restrições em setores como aço e petróleo, limitando sua capacidade de absorção.
Para produtos como petróleo, celulose e carne bovina, a Ásia pode se tornar o principal destino alternativo. Produtos sob investigação da Seção 232, como semicondutores, minerais críticos e produtos farmacêuticos, devem permanecer isentos da tarifa, assim como o petróleo e seus derivados, segundo a Reuters.
Janelas de oportunidade
Welber Barral aponta que a Ásia tende a ganhar protagonismo nas relações comerciais brasileiras, acelerando a dependência dos mercados asiáticos. André Galhardo sugere fortalecer laços com países do Brics, sudeste asiático e China, além de buscar aproximação com a União Europeia para exportação de bens de maior valor agregado.
Segundo Galhardo, “é uma oportunidade única para o Brasil” se aproximar de países europeus ressentidos com o acirramento comercial com os EUA. Jackson Campos, porém, alerta para a forte concorrência interna na União Europeia, sugerindo alternativas em outros mercados.