A ofensiva digital para defender que o “andar de cima” pague mais impostos foi articulada por caciques do PT e só depois incorporada pelo Planalto. O movimento, impulsionado por militantes e influenciadores de esquerda, ganhou força a partir de reuniões iniciadas no começo do ano e resultou em campanhas digitais e mobilização nas redes sociais.
O material da campanha ficou pronto em junho, durante a crise do IOF, e foi divulgado após decisão da Câmara sobre o decreto do governo. Apesar de não prever ataques ao Congresso, vídeos apócrifos circularam, gerando desconforto e reações dentro do governo e no Legislativo.
Articulação e estratégias da campanha
A mobilização para defender a taxação dos mais ricos e bancos foi idealizada por figuras centrais do PT, como Paulo Okamotto, presidente do Instituto Lula, Jilmar Tatto, deputado federal e Secretário de Comunicação do partido, e Otávio Antunes, publicitário ligado ao PT e ao ministro Fernando Haddad. As reuniões começaram no início do ano, diante da percepção de enfraquecimento do governo Lula e falta de agenda clara frente ao Centrão.
O objetivo era coordenar a atuação digital do partido, envolvendo o Instituto Lula e a Fundação Perseu Abramo. Okamotto organizou a militância em um consórcio de comunicadores digitais. Tatto encomendou pesquisas para reposicionar o discurso, abordando temas como reforma da renda e isenção do IR para quem ganha até R$ 5.000. Os levantamentos mostraram queda no apelo das políticas sociais e apontaram bancos, ricos e empresas de apostas como entraves ao progresso social.
Assim nasceu a campanha “Taxação BBB – Bancos, Bets e Bilionários”, com destaque para a preocupação de evangélicos sobre apostas. O PT contratou empresas de comunicação e passou a organizar encontros virtuais com influenciadores e militantes, com a intenção de manter a mobilização até as eleições.
Crise do IOF e antecipação da campanha
O material ficou pronto em junho, durante a crise do IOF. A decisão do presidente da Câmara, Hugo Motta, de pautar a derrubada do decreto do governo acelerou a divulgação das peças digitais, decisão tomada por Tatto. Petistas avaliaram que o momento era propício para ampliar o debate.
Repercussão e tensões com o Congresso
Apesar de as peças oficiais não atacarem diretamente o Congresso, vídeos apócrifos com sátiras ao presidente da Câmara, Hugo Motta, circularam nas redes, acusando-o de defender interesses dos ricos. A repercussão desses conteúdos preocupou o Planalto.
A ministra Gleisi Hoffmann telefonou para Motta e outros líderes do Congresso para esclarecer que o governo não tinha relação com os vídeos. Gleisi e José Guimarães, líder do governo, também usaram as redes para repudiar os ataques. Mesmo assim, aliados de Motta suspeitam de envolvimento do governo.
Integrantes do governo afirmam que não desejam transformar a pauta da justiça tributária em confronto institucional com o Congresso, mas reconhecem a dificuldade de controlar a militância. A campanha unificou diferentes alas do governo, e Lula já definiu a taxação dos mais ricos como principal bandeira até 2026. No Planalto, há quem veja a iniciativa como uma virada na comunicação digital do governo, mas também existe receio de que a estratégia prejudique a relação com o Legislativo.