O presidente Luiz Inácio Lula da Silva assumiu nesta quinta-feira (3) a presidência do Mercosul, sucedendo o argentino Javier Milei. O evento ocorreu na Argentina e marcou a transição do comando do bloco. Os líderes, apesar de adversários políticos, se cumprimentaram após a cerimônia.
Durante o encontro, Lula destacou a importância de fortalecer o comércio interno e externo do bloco. Milei, por sua vez, criticou a burocracia do Mercosul e defendeu maior liberdade comercial entre os países membros.
Debates e discursos na cúpula
No discurso de abertura, Javier Milei apontou que a burocracia do Mercosul impõe restrições aos países e comparou o bloco a uma “cortina de ferro”. Segundo ele, as ações conjuntas prejudicam a maioria dos cidadãos e defendeu medidas para aumentar a liberdade comercial. Caso isso não ocorra, Milei sugeriu a flexibilização das regras do bloco.
Milei também criticou o governo de Nicolás Maduro na Venezuela, exigindo a libertação do policial argentino Nahuel Agustín Gallo. O presidente argentino ainda agradeceu o apoio dos países do bloco à Argentina na disputa pelas Malvinas, afirmando: “Malvinas são território argentino”.
O bloco enfrenta divergências sobre acordos comerciais externos, como o desejo do ex-presidente uruguaio Luis Lacalle Pou de negociar separadamente com a China. O atual presidente do Uruguai é Yamandú Orsi.
Prioridades do Brasil na presidência
Em seu pronunciamento, Lula afirmou que fortalecerá o comércio dentro do bloco e com parceiros externos. Ele defendeu a inclusão dos setores automotivo e açucareiro na união aduaneira e disse estar “confiante” na assinatura de acordos de livre comércio com a União Europeia e a EFTA até o final do ano.
Lula também pretende avançar em negociações com Canadá, Emirados Árabes Unidos, Panamá e República Dominicana, além de atualizar acordos com Colômbia e Equador. O presidente ressaltou a necessidade de o Mercosul voltar-se para a Ásia, citando Japão, China, Coreia, Índia, Vietnã e Indonésia como mercados estratégicos.
Negociações com União Europeia e EFTA
Lula pretende intensificar as tratativas para assinar o acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia, negociação que se arrasta há mais de vinte anos. Se ratificado, o acordo criará a maior zona de livre comércio do mundo, mas depende da aprovação dos países dos dois blocos. O principal entrave está entre os europeus, com a França preocupada com impactos aos seus produtores rurais.
O cenário internacional, com tarifas impostas pelos Estados Unidos, pode incentivar a União Europeia a avançar nas negociações, segundo Lula. O Brasil também conduzirá o avanço do acordo com a Associação Europeia de Livre Comércio (EFTA), composta por Islândia, Liechtenstein, Noruega e Suíça. O Itamaraty informou que as negociações foram concluídas e o texto está em revisão, com divulgação prevista para agosto. O acordo criará uma zona de livre comércio com quase 300 milhões de pessoas e PIB combinado superior a US$ 4,3 trilhões.
Relação entre Lula e Milei
Apesar da visita oficial, não houve encontro bilateral entre Lula e Milei. A agenda de Lula incluiu reuniões com o presidente paraguaio Santiago Peña e, posteriormente, com o líder boliviano Luís Arce. Esta é a primeira viagem de Lula à Argentina desde a posse de Milei, em dezembro de 2023. Durante a campanha, Milei fez críticas públicas a Lula e ao PT. Em 2024, Milei visitou o Brasil, mas reuniu-se apenas com o ex-presidente Jair Bolsonaro.