O programa nuclear do Irã, hoje um dos maiores desafios diplomáticos dos Estados Unidos, teve origem em uma iniciativa americana na década de 1950. Por meio do programa Átomos para a Paz, os EUA forneceram tecnologia, materiais e treinamento a Teerã, então governado pelo Xá Mohamed Reza Pahlavi.
Esse apoio foi fundamental para o desenvolvimento inicial do setor nuclear iraniano, que viria a se tornar foco de tensões internacionais décadas depois. A colaboração foi interrompida após a Revolução Islâmica de 1979, mas suas consequências permanecem centrais na geopolítica global.
O início do programa nuclear iraniano
Em 5 de março de 1957, os Estados Unidos assinaram um acordo de cooperação nuclear com o Irã, então sob o comando do Xá Mohamed Reza Pahlavi. O pacto, parte da iniciativa Átomos para a Paz, permitiu que o Irã recebesse um reator de pesquisa de 5 megawatts e urânio altamente enriquecido, além de treinamento técnico.
O objetivo dos EUA era fortalecer o Irã como aliado estratégico durante a Guerra Fria. Documentos da época apontam que Teerã era visto como peça-chave para conter a influência soviética. Em 1967, o reator foi instalado, mas a falta de especialistas impediu seu pleno funcionamento. Para suprir essa carência, em 1974, foi criado um programa de mestrado em engenharia nuclear no MIT, financiado pelo Irã, que formou as primeiras gerações de engenheiros nucleares iranianos.
O Xá planejava construir 23 usinas atômicas e dominar o ciclo completo do combustível nuclear, mas a colaboração com os EUA foi interrompida após a Revolução Islâmica de 1979. Muitos especialistas deixaram o país e o novo regime inicialmente rejeitou o programa nuclear, considerando-o um desperdício de recursos.
Transformações e consequências
Após um hiato de cinco a seis anos, o Irã retomou o interesse pela tecnologia nuclear, buscando repatriar especialistas e desenvolver um programa atômico próprio. A descoberta, em 2003, de um programa secreto de 18 anos reacendeu preocupações internacionais, levando à imposição de sanções e negociações multilaterais.
O programa nuclear iraniano tornou-se central nas agendas de presidentes americanos como George W. Bush, Barack Obama, Donald Trump e Joe Biden, com diferentes abordagens para tentar frear o avanço de Teerã.
Impacto do Átomos para a Paz e debate sobre proliferação
Especialistas divergem sobre o impacto do Atoms for Peace na proliferação nuclear. Para Mohammed Homayounvash, o programa criou ambiente favorável à transferência de tecnologia para fins pacíficos, mas não é possível afirmar que, sem ele, países como o Irã não teriam avançado em seu desenvolvimento nuclear. Já John Krige, do Instituto de Tecnologia da Geórgia, acredita que a iniciativa facilitou diretamente o surgimento de programas de armas nucleares, ao compartilhar tecnologia civil com potencial militar.
Casos como Índia e Paquistão, cujos cientistas foram treinados sob o programa, são citados como exemplos de proliferação. Por outro lado, instrumentos de controle e salvaguardas também impediram desvios em países como Argentina, Brasil, Taiwan e Coreia do Sul, segundo Peter R. Lavoy.
Atualmente, após ataques israelenses e americanos a instalações iranianas, não se sabe ao certo o estado do programa nuclear do Irã. O futuro do setor permanece incerto, mas as origens do impasse remontam à colaboração entre Washington e Teerã, há mais de meio século.