Cultura

Jéssica Yakecan Potyguara percorre aldeias e enfrenta ameaças para dar visibilidade LGBT

Ativista indígena cria coletivo e desafia preconceito nas comunidades do Ceará e pelo Brasil em defesa dos direitos LGBT

Jéssica Yakecan Potyguara, indígena lésbica de 27 anos da aldeia São José em Crateús (CE), percorre o Brasil para dar visibilidade à população LGBT nas aldeias. Ela enfrenta ameaças, expulsões e preconceito, inclusive dentro da própria comunidade.

Em 2019, fundou um coletivo de indígenas LGBTs e atua em todo o estado, promovendo conscientização e apoio a quem passa pelos mesmos desafios.

Desafios enfrentados por Yakecan Potyguara

Desde cedo, Jéssica Yakecan Potyguara convive com o preconceito por ser indígena, mulher e lésbica. Ela relata que há um mito sobre a inexistência de povos originários no Nordeste, usado para deslegitimar a luta por território. Além disso, dentro dos movimentos sociais, sente a necessidade de se impor mais para ser ouvida como mulher, e ao se assumir lésbica, precisou reconquistar sua credibilidade.

Filha de pajé e descendente de lideranças, Yakecan chegou a se afastar do ativismo devido ao preconceito em sua comunidade. “Eu tive um tipo de apagamento quando eu me assumi. Muitas coisas ficaram difíceis para mim”, afirma. Nos grupos LGBTs, também enfrentou exclusão por ser indígena.

O cenário começou a mudar quando buscou outros LGBTs em sua aldeia e percebeu que, apesar de existirem, o tema era silenciado. Assim, em 2019, criou um coletivo de indígenas LGBTs, que passou a visitar aldeias em todo o Brasil para conscientizar e apoiar pessoas em situação semelhante.

Resistência e religiosidade

Nem todas as comunidades recebem bem o coletivo. Muitas vezes, o grupo é expulso ou ameaçado de morte. Segundo Yakecan, a religiosidade cristã é uma das principais razões para a rejeição. “A maioria das famílias dos parentes que são LGBTs não aceita porque isso é um pecado. O certo é casar a mulher com o homem. Isso que a gente aprende durante o nosso crescimento. E muitas famílias são violentas”, relata.

Para tentar dialogar, a estratégia do coletivo é chegar “com calma” e conversar com as lideranças, tentando superar a violência e resistência.

Reconquista da voz e apoio comunitário

Hoje, Yakecan é professora na primeira escola indígena de Crateús e afirma ter reconquistado o apoio da comunidade. Ela percebe uma mudança de postura entre as lideranças e os mais velhos, que agora demonstram orgulho por sua trajetória e identidade.

Apesar das ameaças e dificuldades, a atuação do coletivo fundado por Yakecan amplia o debate sobre diversidade sexual e de gênero entre os povos indígenas, promovendo espaço para diálogo e visibilidade dos LGBTs nas aldeias.

O exemplo de Yakecan inspira outras pessoas a buscarem aceitação e respeito, mostrando que a resistência pode gerar transformações positivas mesmo diante de contextos adversos.

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