Cultura

Maria Leopoldina assinou a independência do Brasil antes do Grito do Ipiranga

Arquiduquesa austríaca de 11 idiomas foi a primeira mulher a governar o país, mas a história a reduziu a esposa e mãe de imperadores
Maria Leopoldina, protagonista da independência do Brasil, em retrato histórico com a bandeira nacional ao fundo

A arquiduquesa austríaca Maria Leopoldina assinou a separação do Brasil em relação a Portugal em 2 de setembro de 1822, cinco dias antes do Grito do Ipiranga. Como regente interina durante viagem de dom Pedro 1º a São Paulo, ela se tornou a primeira mulher a governar o país.

Casada por procuração aos 20 anos com um homem que nunca havia visto, a princesa desembarcou no Brasil após seis meses de viagem e, apesar do papel decisivo na Independência, ficou conhecida na história oficial apenas como esposa e mãe de imperadores.

Uma história reescrita nas últimas décadas

Pesquisas dos últimos 30 anos revisam a imagem de Leopoldina como figura melancólica e submissa. O historiador Paulo Rezzutti, autor de D. Leopoldina: a história não contada, argumenta que ela ajudou a arquitetar a Independência, mas costuma ser lembrada só como mãe de dom Pedro 2º e esposa de dom Pedro 1º.

A pesquisadora Isabel Vasconcelos vê o episódio de forma diferente: para ela, a decisão de Leopoldina de não retornar a Portugal, mesmo pressionada, foi menos um gesto revolucionário e mais um cálculo político bem informado sobre o momento vivido pelo Brasil.

Educada para governar

Filha de Francisco 1º da Áustria, Leopoldina integrava a dinastia Habsburgo e falava 11 idiomas. Segundo o professor da USP João Paulo Garrido Pimenta, toda a formação da família — línguas, ciências e até teatro — preparava seus membros para representar o papel de monarcas diante do povo.

O medo de Leopoldina em viajar a Portugal também tinha raízes familiares: a tia-avó, Maria Antonieta, havia sido guilhotinada na Revolução Francesa após ser acusada de excessos como rainha.

Legado além do poder político

Contra a escravidão, Leopoldina tentou reduzir a dependência da mão de obra escrava incentivando a imigração europeia: primeiro trouxe suíços, que fundaram Nova Friburgo (RJ), depois estimulou a vinda de alemães para povoar o sul do país.

A imperatriz também deixou marcas na cultura brasileira. Trouxe consigo a Missão Científica Austríaca, formada por pintores e naturalistas, e sua própria biblioteca, que deu origem a um acervo no Palácio. As cores da bandeira nacional remetem às duas casas reais unidas por seu casamento: o verde representa os Bragança, de dom Pedro; o amarelo, os Habsburgo, de Leopoldina.

Grávida, Leopoldina morreu aos 29 anos, em 11 de dezembro de 1826, após abortar o filho no leito de morte. A causa oficial registrada foi septicemia puerperal, mas versões históricas apontam que ela teria sofrido violência física de dom Pedro 1º pouco antes de morrer.

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