A agência Fitch Ratings manteve a nota de crédito do Brasil em BB, com perspectiva estável, conforme comunicado divulgado nesta quinta-feira (26). A decisão reflete a expectativa de manutenção de políticas fiscais responsáveis e ambiente macroeconômico estável.
Apesar dos avanços em reformas estruturais, a Fitch alerta para desafios fiscais, aumento da dívida pública e riscos políticos que podem impactar a confiança dos investidores e a execução de medidas já aprovadas.
Motivos para a manutenção da nota
A Fitch Ratings justificou a manutenção da nota BB do Brasil ao destacar a resiliência da economia diante de choques externos, avanços em reformas e a expectativa de continuidade de políticas fiscais responsáveis. A agência ressaltou o tamanho e a diversificação da economia brasileira, as finanças externas sólidas e as reservas internacionais robustas, além dos mercados domésticos profundos e baixa dependência de dívida em moeda estrangeira.
No entanto, a nota segue limitada pelo alto e crescente endividamento do governo em relação ao PIB, rigidez orçamentária, baixos indicadores de governança e crescimento potencial reduzido. A Fitch também apontou que as incertezas fiscais continuam sendo fonte de risco macroeconômico, manifestadas na volatilidade recente do mercado. As perspectivas para reformas estruturais só devem ficar mais claras após as eleições de 2026.
Desafios e projeções fiscais
Apesar da redução do déficit primário em 2024 (0,4% do PIB), a agência observa que o resultado foi influenciado por receitas pontuais, sem representar melhora estrutural. A resistência do Congresso a novos impostos, frustração com a arrecadação e aumento de gastos geram incertezas. A Fitch projeta déficit total do governo em 8% do PIB para 2025, pressionado por juros altos e fim dos estímulos fiscais. A dívida pública atingiu 76,5% do PIB em 2024 e deve continuar subindo, especialmente diante do cenário eleitoral de 2026, que pode dificultar contenção de gastos e favorecer políticas populistas.
A classificação BB indica grau especulativo, mostrando que o Brasil está menos vulnerável ao risco no curto prazo, mas ainda enfrenta incertezas econômicas e financeiras. O país não possui o selo de bom pagador, que sinalizaria menor risco de calote para investidores.
Como funcionam as notas de crédito
As agências de classificação utilizam uma escala com mais de 20 notas, divididas entre grau de investimento e grau especulativo. O grau de investimento representa menor risco e facilita a atração de capital estrangeiro, ampliando liquidez e capacidade de investimento. O grau especulativo, por sua vez, indica ausência do selo de bom pagador, dificultando o acesso a investimentos de fundos internacionais, que exigem classificação superior.
Segundo Alex Nery, professor da FIA Business School, o único período em que o Brasil obteve o selo de bom pagador foi entre 2008 e 2015. A entrada ou saída desse grau depende de fatores como reservas internacionais, cenário fiscal e estabilidade política. Países que perdem o selo costumam levar de 5 a 10 anos para recuperá-lo; o Brasil está há nove anos no grau especulativo.
Trajetória da nota do Brasil
O Brasil conquistou grau de investimento em 2008 pelas agências Fitch Ratings e S&P, e em 2009 pela Moody’s, devido à redução da dívida externa e melhora das perspectivas de crescimento. Em 2011, houve nova elevação, refletindo aumento do crescimento potencial e compromisso fiscal. O país perdeu o selo em 2015 (S&P e Fitch) e 2016 (Moody’s), após crise econômica e deterioração das contas públicas.
Expectativas para o futuro
O Brasil está a um degrau de obter selo de bom pagador na Moody’s, mas enfrenta obstáculos como instabilidade política e desafios fiscais. Alex Nery destaca que, apesar das reformas aprovadas, a execução e o cumprimento das metas fiscais serão decisivos para futuras avaliações das agências.