A visita de Lula à Casa Branca para encontrar Trump segue sem data definida — e a demora já tem consequências diplomáticas. Para integrantes do Itamaraty, o distanciamento “esfriou a química” entre os dois presidentes.
No vácuo deixado pela ausência de um canal direto entre os líderes, a ala ideológica do governo Trump ganhou terreno para avançar pautas ligadas à família Bolsonaro.
A agenda que avança sem presidentes
O encontro entre Lula e Trump estava inicialmente previsto para meados de março, mas segue sem data confirmada. A ausência de interlocução direta criou espaço para outros atores.
Funcionários do governo Trump relatam, sob reserva, que Marco Rubio, secretário de Estado, e Darren Beattie — assessor para questões ligadas ao Brasil que chegou a pedir para visitar Jair Bolsonaro — estão conseguindo emplacar pautas da família Bolsonaro dentro da Casa Branca. Beattie é uma das peças centrais dessa articulação dentro do Departamento de Estado, como revelou o Tropiquim ao cobrir a pressão bolsonarista para classificar o PCC e o CV como organizações terroristas.
Com o fracasso da estratégia tarifária, a ala ideológica redirecionou os esforços para a área de segurança pública — terreno onde o combate ao narcotráfico serve de argumento para pressionar o Brasil.
Diante da escalada, Lula buscou aliados regionais: ligou para o colombiano Gustavo Petro e a mexicana Claudia Sheinbaum para articular resistência à tentativa americana de classificar o PCC e o CV como organizações terroristas.
Soberania como trincheira
O temor central do Itamaraty é que Washington utilize a classificação de grupos criminosos como terroristas para justificar operações militares na região — uma ingerência direta em questões de soberania nacional.
A preocupação não é abstrata. Diplomatas avaliam, em caráter reservado, que o argumento do combate ao narcotráfico pode ser instrumentalizado para legitimar interferências em assuntos internos brasileiros.
Em resposta, a área de comunicação do governo Lula prepara uma mobilização nas redes sociais centrada no tema da soberania nacional. O objetivo é traduzir o debate geopolítico em linguagem acessível e criar pressão pública antes que qualquer decisão americana se concretize.
O episódio expõe a vulnerabilidade da diplomacia quando não há encontros de cúpula confirmados: sem a “química” presidencial ativa, o espaço político é ocupado por atores com agenda própria — e nem sempre alinhada aos interesses do Brasil.