Medicamentos da classe dos agonistas do receptor de GLP-1 estiveram associados a menor risco de morte, amputação e hospitalização em pacientes com diabetes tipo 2 e doença arterial periférica, segundo estudo publicado no Journal of the American Heart Association.
A pesquisa acompanhou 4.266 pacientes por cinco anos — metade em uso de GLP-1 e metade em uso de metformina — e encontrou resultados favoráveis em múltiplos desfechos clínicos graves para o grupo dos agonistas, reforçando evidências de benefícios vasculares além do controle glicêmico.
Os pesquisadores utilizaram dados de prontuários eletrônicos da plataforma TriNetX coletados entre 2010 e 2025, comparando 2.133 usuários de GLP-1 com 2.133 usuários de metformina. A análise revelou que, ao longo de cinco anos, o grupo dos agonistas apresentou menores taxas de mortalidade, hospitalizações, revascularizações e amputações de membros.
Segundo Akiva Rosenzveig, autora do estudo, pacientes com isquemia crônica e obesidade carregam carga elevada de inflamação, disfunção endotelial e doença metabólica — processos sobre os quais os GLP-1 atuam diretamente. “Como esses pacientes apresentam o maior risco basal, eles podem ser os que mais se beneficiam do tratamento”, afirmou.
Não foram observadas diferenças estatisticamente significativas nas taxas de infarto do miocárdio e AVC entre os grupos. Para Rosenzveig, a mortalidade nesses pacientes é determinada por múltiplos fatores além dos eventos cardíacos isolados — e a combinação de menos amputações, revascularizações e internações pode explicar a melhor sobrevida global observada.
Por que a proteção vai além da glicose
Além do controle glicêmico e da perda de peso, os agonistas do receptor de GLP-1 podem reduzir a inflamação sistêmica, melhorar a função endotelial e atuar sobre processos vasculares periféricos. Esses mecanismos ajudariam a explicar os desfechos favoráveis em membros inferiores — uma dimensão distinta dos eventos cardíacos tradicionais, segundo os autores do estudo.
A análise também avaliou subgrupos específicos. Entre pacientes com isquemia crônica ameaçadora do membro — a forma mais grave da doença arterial periférica —, os GLP-1 também estiveram associados à redução de desfechos clínicos graves, embora tenha sido registrada frequência ligeiramente maior de eventos renais adversos em comparação ao grupo metformina.
Pacientes com obesidade (IMC igual ou superior a 30 kg/m²) foram o subgrupo com resultados mais expressivos. Já entre aqueles sem obesidade, verificou-se apenas uma tendência de queda nas hospitalizações, sem diferenças significativas nos demais desfechos. O grupo com claudicação — manifestação mais comum da doença — também apresentou benefícios associados ao uso dos agonistas.
Semaglutida e o ensaio STRIDE
Os autores relacionam os achados ao ensaio STRIDE, primeiro estudo randomizado focado especificamente em pacientes com diabetes tipo 2 e doença arterial periférica tratados com semaglutida. Aquele trial havia demonstrado melhora na capacidade de caminhada e na qualidade de vida, mas sem escala suficiente para avaliar mortalidade e amputações — lacuna que a nova análise buscou preencher em uma população maior.
A semaglutida é hoje a substância da classe com evidências mais robustas para a doença arterial periférica. É também o mesmo medicamento que a Novo Nordisk tenta incluir no SUS com desconto de 59%, após recusa em 2025 pelo custo elevado.
Os autores alertam para as limitações do trabalho: por ser retrospectivo e baseado em registros eletrônicos, não é possível estabelecer causalidade nem determinar qual agonista específico oferece maior eficácia. Ensaios clínicos prospectivos e randomizados serão necessários para confirmar se os benefícios observados representam, de fato, um efeito direto dos medicamentos nessa população.
