Um estudo publicado na revista Geophysical Research Letters projeta redução de até 13,9% nas chuvas do sul da Amazônia até 2050 — o equivalente a 337 milímetros a menos por ano.
A pesquisa, com participação de cientistas do Brasil, China, Austrália, Coreia do Sul e Finlândia, é a primeira a medir o efeito combinado do desmatamento regional e das mudanças climáticas globais sobre o regime pluviométrico da área.
O resultado supera em muito a ação isolada de cada fator: o desmatamento previsto, por si só, reduziria as chuvas em apenas 1,7%. As mudanças climáticas responderiam por queda de 12,3% — mas a interação entre ambos amplifica o dano de forma expressiva.
Floresta encolhe, clima piora: a soma que preocupa
O modelo utilizado no estudo projeta que a cobertura florestal no sul da Amazônia deve diminuir de 49%, em 2020, para 39% até 2050. No mesmo período, as pastagens devem se expandir de 30% para 36%, e a área cultivada deve crescer 5 pontos percentuais — seguindo o cenário business-as-usual do modelo SimAmazonia, que considera as tendências de expansão agropecuária sem avanços significativos na legislação ambiental.
Nos últimos 50 anos, a Amazônia perdeu cerca de 20% de sua cobertura vegetal para lavouras e pastagens. Estudos anteriores indicam que o sistema de regulação de chuvas da floresta entra em colapso quando o desmatamento ultrapassa 30% a 40% regionalmente — e as projeções apontam dano total de 44,9% até 2050.
O Sexto Relatório de Avaliação do IPCC já alertava para secas prolongadas e redução de chuvas no sul da Amazônia como efeito do aquecimento global. O que o novo estudo revela é a dimensão interativa: as mudanças climáticas tornam o regime de precipitação mais sensível ao desmatamento, criando um efeito amplificador que não havia sido investigado anteriormente.
Mesmo com o desmatamento brasileiro atingindo o menor patamar desde 2019 — 984 mil hectares em 2025, segundo o MapBiomas —, o dano acumulado nas décadas anteriores já coloca o sul da Amazônia numa trajetória de colapso no regime de chuvas, segundo os pesquisadores.
Agronegócio em risco e o paradoxo das emissões
Um achado contraintuitivo envolve a comparação entre os dois cenários de emissões analisados. No contexto de altas emissões, a queda total das chuvas é menor — 10,9%, ou 267 milímetros — do que no cenário de baixas emissões (13,9%, ou 337 milímetros). A diferença, porém, não indica vantagem: nesse contexto, o volume de precipitação cresce em pontos específicos, enquanto cai nas demais áreas, revelando um desequilíbrio regional mais acentuado.
As consequências ultrapassam o campo ambiental. A redução e irregularidade das chuvas impacta diretamente a produtividade e a competitividade do agronegócio no sul da Amazônia — região sob forte pressão da fronteira agrícola. Para os autores, barrar o desmatamento é a principal medida capaz de proteger tanto os recursos hídricos quanto a agricultura regional e nacional.
A aprovação pela Câmara da redução da Floresta Nacional do Jamanxim, abrindo caminho para mais desmatamento no Pará, vai na direção oposta do que o estudo recomenda para preservar o regime de chuvas da região. O cenário se torna ainda mais grave diante do novo El Niño com 90% de probabilidade de se consolidar em 2026, que deve aprofundar ainda mais as secas no Norte do país — exatamente a região analisada na pesquisa.
