O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), afirmou neste domingo (17) que o pedido de abertura da CPI do Banco Master receberá “tratamento regimental” — expressão lida nos bastidores como sinal de que a comissão não tem pressa para sair do papel.
A justificativa repassada por Motta a líderes partidários é a de que seria preciso analisar os 15 pedidos de CPIs anteriores, instalando ou arquivando cada um. Parlamentares e técnicos, porém, são mais diretos: a trava é política, não protocolar.
O requerimento de abertura na Câmara foi protocolado em 2 de fevereiro pelo deputado Rodrigo Rollemberg (PSB-DF) com assinaturas suficientes. Aguarda apenas um despacho de Motta.
Sete pedidos, nenhuma comissão instalada
O Congresso Nacional acumula ao todo sete requerimentos para investigar o Banco Master — entre CPIs e CPMIs. Na Câmara, o pedido de Rollemberg é o único formalizado. No plano misto do Congresso, há dois pedidos de CPMI: um de autoria do deputado Carlos Jordy (PL-RJ) e outro assinado pelas deputadas Heloísa Helena (Rede-RJ) e Fernanda Melchionna (PSOL-RS).
As duas deputadas já entregaram o requerimento com 181 deputados e 35 senadores assinados — margem folgada acima do mínimo constitucional, mas o documento segue sem leitura em plenário. O deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) e o senador Carlos Viana (PSD-MG) coletam assinaturas para novas iniciativas.
Alcolumbre e o precedente ignorado
O regimento do Congresso exige a instalação automática da CPMI na primeira sessão após o protocolo do requerimento. Davi Alcolumbre (União-AP), presidente do Senado, descumpriu a norma ao presidir a sessão de análise dos vetos da dosimetria sem ler o documento em plenário — precedente que embasou o mandado de segurança impetrado por Lindbergh Farias no STF para obrigar a Mesa do Congresso a criar a comissão.
Governistas sustentam que houve um acordo com a oposição: os vetos da dosimetria seriam derrubados em troca da não criação da CPMI. Alcolumbre e a oposição negam o pacto.
No Senado, há ainda iniciativas individuais dos senadores Eduardo Girão (Novo-CE) e Alessandro Vieira (MDB-SE).
Todos contra a CPI — e por quê
Por trás do argumento regimental de Hugo Motta e da omissão de Alcolumbre há um denominador comum: nenhum parlamentar — de governo ou de oposição — quer de fato a comissão instalada, e o pretexto burocrático serve de cobertura para um bloqueio político consensual.
Um deputado do Centrão, sob reserva, resume a máxima de Brasília: “Uma CPI todo mundo sabe como começa, ninguém sabe como termina.” O mesmo parlamentar reconhece que uma comissão desse tipo “teria o potencial de atingir muita gente” dentro do próprio Congresso.
O calendário de 2026, ano eleitoral, adiciona mais uma camada de resistência. Com o prazo curto para investigações de impacto antes das urnas, deputados e senadores apontam a combinação de agenda exígua e falta de interesse da cúpula como as razões pelas quais os pedidos seguem empilhados sem despacho.
