Três pessoas foram presas nesta quinta-feira (5) na Operação Laziosi, que investiga a venda de remédios falsificados contra o câncer em São Paulo. Um dos produtos é o Keytruda, imunoterapia indicada ao papa Leão XIV.
Segundo apuração do g1, um laudo anexado ao inquérito mostra que o frasco falso que chegou ao Hospital IGESP não tinha pembrolizumabe, o princípio ativo, nem qualquer outra substância farmacêutica. Havia apenas sódio e cloro.
De acordo com o hospital, uma dose do produto chegou a ser aplicada em um paciente.
Da caixa ao frasco, tudo era falso
A suspeita surgiu dentro do próprio hospital. Em julho de 2024, a fabricante MSD recolheu no IGESP dois frascos de Keytruda de 100 mg para examinar a embalagem e o conteúdo. O laboratório forense da empresa concluiu a análise em setembro daquele ano.
A caixa exibia um número de lote verdadeiro, o A101547, mas a data de validade tinha um algarismo a mais no ano. No rótulo do frasco, aparecia outro lote, que não existe.
Os peritos classificaram como falsos todos os componentes: caixa, rótulo, bula, lacres, selo metálico, tampa e o próprio frasco. Três análises químicas da solução não acharam vestígio de pembrolizumabe nem de outro composto ativo.
A MSD afirma ser a única importadora do Keytruda no Brasil e abastecer o mercado privado por meio de 15 distribuidoras credenciadas. Médicos ouvidos na reportagem avaliam que a fraude colocou em risco a vida de pacientes.
O caso não é isolado: em outubro, a Anvisa já havia mandado apreender dois lotes do Keytruda por suspeita de falsificação, após alerta da própria fabricante.
Como age o remédio indicado ao papa
Diferente da quimioterapia, que ataca diretamente as células do tumor, o pembrolizumabe atua sobre o sistema imunológico. Ele integra a classe dos inibidores de PD-1.
Muitos tumores usam a proteína PD-L1 como um freio para as células de defesa, que deixam de reconhecer o câncer como ameaça. Por isso, a presença de PD-L1 no tumor é um dos marcadores para indicar o tratamento. A resposta costuma ser mais forte em tumores com alta carga mutacional, que ficam mais visíveis para as defesas do corpo.
Aprovado para ao menos 19 tipos de tumor, entre eles pulmão, melanoma, rim e estômago, o Keytruda é usado sobretudo em casos avançados ou para evitar o retorno da doença após cirurgia. É a situação de Leão XIV, que teve um adenocarcinoma de 2,5 centímetros retirado do pulmão em 13 de outubro, sem sinais de células cancerígenas em outras regiões, e deve fazer a imunoterapia por pelo menos três anos.
Preço alto empurra pacientes à Justiça
O Keytruda é um dos maiores sucessos comerciais da indústria farmacêutica: em 2025, gerou US$ 31,7 bilhões em vendas, quase metade da receita da MSD. O custo anual do tratamento vai de cerca de US$ 80 mil na Alemanha a US$ 208 mil nos Estados Unidos.
No Brasil, onde o frasco passa de R$ 20 mil, as vendas cresceram 265% entre 2020 e 2024 e chegaram a US$ 753,7 milhões. É também o medicamento com mais ações judiciais no país, com 6,7 mil processos nas Justiças estadual e federal, segundo análise feita até abril.
No SUS, o remédio só é oferecido para melanoma avançado. O pedido para câncer de pulmão de não pequenas células segue em análise, e especialistas apontam o custo como um dos entraves. Pacientes como Francisca Almeida, de 66 anos, recorrem à Justiça diante de orçamentos de cerca de R$ 97 mil por sessão na rede privada.
Uma saída em discussão é a produção nacional. Em março, o governo anunciou acordo para a MSD transferir ao Butantan a tecnologia do pembrolizumabe, com a meta de baratear o remédio e ampliar o uso no SUS para cânceres de mama, pulmão, esôfago e colo do útero. Até a publicação da reportagem original, o Ministério da Saúde não havia informado novidades sobre essa produção.