Economia

PF diz que BRB manteve compras do Master mesmo após alerta de falhas em 90% da carteira

Relatório que indicia 15 pessoas cita pressão da presidência, compras fracionadas e mudança de critérios; defesas contestam a acusação
Fachada do BRB com brasão da Polícia Federal ao fundo, ilustrando o alerta BRB carteiras Banco Master apontado em relatório

A diretoria do BRB (Banco de Brasília) foi avisada em agosto de 2024 de que cerca de 90% de uma carteira de crédito comprada do Banco Master tinha falhas ou não cumpria os critérios do próprio banco. Mesmo assim, as operações entre as duas instituições continuaram.

O alerta, feito por um gerente, consta do relatório parcial da Polícia Federal concluído nesta quarta-feira (28). O documento indicia 15 pessoas e afirma que a presidência do banco público pressionou pela aprovação de novas compras.

Filtros reprovavam a maior parte dos créditos

Segundo a PF, o problema não se limitou a um episódio. Em análises internas feitas em momentos diferentes, a maior parte dos ativos oferecidos pelo Master era descartada por não cumprir as exigências do BRB. Em alguns casos, só uma pequena parte dos créditos passava pela triagem.

Para os investigadores, a reação do banco não foi frear as negociações. Alguns critérios de avaliação foram alterados depois, o que ampliou o volume de créditos que podiam ser aceitos. Na leitura da PF, a qualidade duvidosa dos ativos já era discutida dentro do banco brasiliense em 2024.

O aviso de agosto também não foi o primeiro sinal. Documentos internos do BRB já mostravam que a equipe técnica sabia de carteiras sem lastro verificável quando a compra do Master foi anunciada.

Outro alerta partiu da área de controle e riscos. Segundo o relatório, a então diretora executiva de Controle e Riscos, Luana de Andrade Ribeiro, informou à cúpula que havia R$ 1,1 bilhão em créditos com atraso superior a 15 dias. A área de Riscos também não havia recebido as averbações dos contratos, documentos usados para confirmar a natureza consignável dos créditos, e mesmo assim as transações foram confirmadas, de acordo com a investigação, informada pelo g1.

Em mensagem de 12 de fevereiro de 2025 ao então diretor de Finanças, Dário Oswaldo Garcia Júnior, Luana disse que fazia a análise “na confiança” e classificou a operação como uma “colcha de retalhos”, por não conseguir reunir todas as condições em um único parecer. A PF afirma que ela sofria “pressão hierárquica” para concluir o trabalho. Apesar dos problemas, ela informou a aprovação do parecer. A PF também aponta que Luana assinou informes sobre a deterioração da liquidez do BRB e, ainda assim, votou a favor de novas operações com carteiras de crédito. Luana e Dário estão entre os 15 indiciados.

Cobrança por rapidez e compras fracionadas

Mensagens analisadas pela PF mostram o então presidente Paulo Henrique Costa cobrando rapidez, definindo prioridades e indicando quais operações deveriam ser concluídas. Em dezembro de 2024, depois de identificadas irregularidades em uma carteira ainda em análise, ele escreveu que era preciso olhar “esses 71 mm [R$ 71 milhões] rápido”. O então diretor de Finanças, Dario Oswaldo Garcia Junior, respondeu que iria “apertar” a equipe responsável.

Em 23 de dezembro, segundo o relatório, Paulo Henrique listou cinco operações que pretendia fechar, somando cerca de R$ 1 bilhão entre compras de carteiras e vendas de créditos inadimplentes. Ele apontou como prioridade liquidar no mesmo dia duas delas, de R$ 408 milhões e R$ 200 milhões. As cobranças ocorreram quando a cúpula já recebia informações sobre margens incompatíveis, inadimplência de 28% e 15% e falhas nas planilhas das operações.

A PF lembra que cabia à Diretoria Colegiada barrar negociações com informações incompletas ou fora das normas. Em vez disso, 13 das 14 notas executivas, que davam início ao processo de aquisição, foram aprovadas antes da conclusão dos pareceres técnicos.

O relatório destaca ainda o fracionamento das compras. A Diretoria Colegiada só podia deliberar sobre carteiras de até R$ 750 milhões; acima disso, o caso iria ao Conselho de Administração. O colegiado aprovou 25 transações, que somam R$ 17,5 bilhões, e 21 delas foram fixadas em exatos R$ 750 milhões. O total equivale a 23,3 vezes o limite de alçada.

Outros diretores na mira

O relatório reforça uma linha que a investigação já seguia. Em agosto, uma perícia da PF apontou indícios de que outros diretores do BRB descumpriram normas internas e aprovaram operações fora dos controles regulares.

Ex-presidente nega ter sabido das fraudes

Entre os indiciados está Paulo Henrique Costa, ex-presidente do BRB, acusado de gestão fraudulenta e organização criminosa. Em nota, a defesa disse ter recebido o indiciamento “com surpresa” e afirmou que ele não sabia das fraudes nas carteiras.

Segundo os advogados, foi o próprio Paulo Henrique quem detectou as irregularidades, exigiu R$ 25 bilhões em garantias e levou o caso ao Banco Central. A nota diz que as decisões eram colegiadas, que o presidente do banco tinha alçada de zero real e que, dos R$ 12,2 bilhões da carteira, R$ 10,5 bilhões foram trocados por ativos saudáveis até a saída dele do cargo.

A defesa também reclama da prisão preventiva, que já passa de 180 dias sem revisão judicial, e diz que um pedido de liberdade provisória aguarda parecer da Procuradoria-Geral da República desde 12 de junho.

Paulo Henrique foi afastado em novembro de 2025 pela Operação Compliance Zero e já é cobrado na Justiça pelo próprio BRB. Agora cabe à PGR avaliar o relatório e decidir se apresenta denúncia.

Outros indiciados também contestam o relatório. A defesa de Daniel Vorcaro, dono do Master, classificou o indiciamento de “açodado”, lembrou que a própria PF pediu mais 60 dias ao STF para concluir a apuração e disse que nenhuma perícia oficial apontou prejuízo ao BRB. A defesa de Augusto Lima rejeitou a conclusão e afirmou que ele não participou da fraude.