O “Escudo das Américas”, coalizão antifacções articulada por Donald Trump, não é combate ao crime organizado: é um “cerco” ao Brasil. A leitura é de Celso Amorim, assessor especial de Lula para assuntos internacionais, em declarações ao g1.
Segundo Amorim, Washington persegue uma “dominação absoluta” sobre o país e sustenta a iniciativa num argumento “falso”. No Palácio do Planalto, a inclusão do PCC e do Comando Vermelho na lista de alvos é tratada como medida “muito grave”.
A coalizão reúne os presidentes latino-americanos mais próximos de Trump, entre eles Javier Milei, na Argentina, Abelardo de la Espriella, na Colômbia, e Nayib Bukele, em El Salvador. No mês passado, a pedido do governo americano, o grupo assinou um acordo que designa formalmente 24 facções criminosas como “ameaças compartilhadas” e as transforma em alvo de sanções.
As duas facções brasileiras citadas são o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho — o documento foi assinado em setembro por 15 países, três deles vizinhos do Brasil, e desde então o governo brasileiro repete a mesma avaliação sobre a gravidade do movimento.
Por que os vizinhos assinaram
Auxiliares diretos de Lula enxergam no acordo uma “porta de entrada” para ações militares na região, nos moldes do que já ocorreu na Venezuela e na Colômbia.
No Planalto, a avaliação é que os países da vizinhança, em geral, querem preservar a boa relação com o Brasil, mas aderiram por razões distintas. Milei, Bukele e Espriella teriam assinado por alinhamento automático a Trump; Equador, Paraguai e Panamá, por cálculo político — buscar recursos financeiros e evitar operações militares americanas em seus territórios.
A estrutura não é nova: a coalizão nasceu em março, por ordem executiva que reuniu 16 países latino-americanos contra os cartéis, em uma cúpula de lançamento da qual o Brasil ficou de fora.
Tarifaço no mesmo pacote
Amorim conecta a pressão ao calendário eleitoral brasileiro. Para ele, os Estados Unidos também usaram as tarifas sobre produtos brasileiros vendidos no mercado americano para tentar “intimidar” Lula em pleno processo eleitoral. Ao todo, a Casa Branca anunciou dois tarifaços contra o Brasil.
Negociadores brasileiros chegaram à mesma conclusão sobre a motivação política: do lado americano, os dados apresentados pelo Brasil foram desconsiderados e a argumentação se apoiou em informações improcedentes, como a de que os EUA teriam déficit comercial com o país — quando a relação, na prática, é superavitária para os americanos.
A frase que resume o diagnóstico
“É que o Lula e o Alckmin não têm medo de tarefas difíceis, eles enfrentam. Essa é a questão. E eles [EUA] querem alguém que se acomode e faça o que eles querem, pra ser um grande Porto Rico, com todo respeito ao povo de Porto Rico”, afirmou o assessor.
O tom tem histórico: em maio, Amorim já havia chamado de inaceitável qualquer intervenção estrangeira na segurança pública brasileira, dias antes de o governo Trump rotular PCC e CV como organizações terroristas — classificação que integrantes do governo Lula criticaram, argumentando que a rotulação não resolve o problema do crime organizado.