O governo dos Estados Unidos suspendeu, a partir desta sexta-feira (2), os serviços consulares na embaixada em Brasília e em todos os consulados americanos no Brasil. A justificativa oficial é genérica: “questões de segurança”.
Em nota publicada no site da embaixada, a representação diplomática orientou que cidadãos americanos que precisem de assistência de emergência não se dirijam à embaixada, aos consulados ou a outras instalações diplomáticas dos EUA no país.
O atendimento urgente passa a ser feito pelo oficial de plantão, por telefone e e-mail.
Ameaça não detalhada e funcionários em trabalho remoto
A medida alcança as representações em Brasília, Belo Horizonte, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro e São Paulo — ou seja, toda a rede consular americana em território brasileiro, que soma seis unidades diplomáticas. A nota não informa por quanto tempo o atendimento ficará paralisado. Também não fica claro, segundo apuração do g1, quais serviços consulares foram especificamente suspensos nem se a emissão de vistos e passaportes continua sendo feita no período.
A embaixada também não especificou quais riscos motivaram a decisão, anunciada na quinta-feira (1º). Segundo o portal Metrópoles, a sede em Brasília foi alvo de uma ameaça, e um comunicado foi disparado por e-mail aos funcionários determinando home office nesta sexta-feira.
O governo brasileiro apura o que seria essa possível ameaça apontada pelos Estados Unidos como motivo da suspensão, segundo apuração do g1. Autoridades ouvidas pela reportagem evitaram confirmar a natureza dos indícios, sob o argumento de que isso poderia comprometer a averiguação, e avaliam que, neste momento, é melhor “errar por excesso do que por omissão”. Um auxiliar do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou ao g1 que as autoridades brasileiras estão atentas ao caso, mas que não há necessidade de alarde.
A Austrália seguiu o mesmo caminho e também suspendeu, nesta sexta-feira, o atendimento consular no Brasil. Diferentemente da nota americana, o comunicado australiano foi mais específico sobre a natureza do risco: citou a possibilidade de atentados terroristas como uma “ameaça mundial” e orientou cidadãos australianos a redobrar a atenção em locais turísticos ou com grande concentração de estrangeiros. O governo australiano classificou o Brasil no nível 2 de uma escala de alerta que vai de 1 a 4, recomendando “alto grau de cautela”. Em comunicado do Smartraveller, serviço oficial de assistência a viajantes vinculado ao Departamento de Relações Exteriores e Comércio (DFAT) da Austrália, o governo australiano associou o alerta diretamente ao calendário eleitoral brasileiro — primeiro turno em 4 de outubro, segundo turno em 25 de outubro e posse presidencial marcada para 5 de janeiro de 2027 —, alertando para a possibilidade de concentrações políticas, manifestações e reforço de segurança antes, durante e depois da votação, além de reforçar a recomendação de cautela redobrada no país por conta do risco de crimes violentos e lembrar da exigência de visto para entrada no Brasil. Austrália e Estados Unidos integram, ao lado de Reino Unido, Canadá e Nova Zelândia, a aliança de inteligência Five Eyes, parceria construída desde 1946. Segundo fontes do governo brasileiro ouvidas pelo g1, não há indícios de ameaça direta contra a representação australiana até o momento: a Austrália teria fechado as portas por precaução, seguindo a decisão dos EUA.
O que diz o Departamento de Estado
Em nota enviada à imprensa, um porta-voz do Departamento de Estado afirmou que “a administração Trump tem máxima prioridade à segurança e à proteção dos cidadãos americanos” e que o governo está “trabalhando em estreita cooperação com nossas contrapartes brasileiras para tratar de questões de segurança”.
O porta-voz citou ainda o sistema STEP — sigla em inglês para Programa de Registro Inteligente de Viajantes —, serviço que permite à diplomacia americana enviar alertas sobre ameaças e mudanças no contexto local a cidadãos dos EUA no exterior, além de facilitar o contato com a embaixada ou o consulado mais próximo em caso de emergência.
Paralisação chega a dois dias da votação no Brasil
O fechamento do atendimento consular ocorre em meio a uma fase de tensão na relação entre os dois países. A suspensão vem poucos dias depois de o Washington Post revelar que o Departamento de Estado planejava enviar diplomatas a Brasília para questionar a integridade das urnas antes do primeiro turno de 4 de outubro.
O episódio se soma a uma sequência de atritos diplomáticos entre Brasília e Washington, que incluiu, em agosto, a revogação do visto da embaixadora brasileira nos Estados Unidos. Entre os pontos de desgaste também estão as tarifas impostas pelo governo de Donald Trump a produtos brasileiros, que se somam às preocupações do governo de Luiz Inácio Lula da Silva sobre possíveis tentativas de interferência americana no pleito de outubro — preocupação reforçada por alertas de especialistas e da própria Agência Brasileira de Inteligência (Abin) sobre novas tentativas de interferência do governo de Donald Trump na eleição brasileira, que tem primeiro turno marcado para este domingo (4).
Enquanto a paralisação durar, o único canal indicado pela embaixada para emergências é o oficial de plantão, com telefones e e-mails divulgados para cada uma das seis cidades em que os EUA mantêm representação no Brasil. O comunicado é explícito ao pedir que americanos não procurem fisicamente os prédios diplomáticos.
A embaixada americana em Brasília tem papel simbólico na relação bilateral: os Estados Unidos foram o primeiro país a instalar uma representação diplomática na capital federal, em terreno doado pelo governo brasileiro e escolhido em 1958 pelo então secretário de Estado norte-americano John Foster Dulles, durante visita ao país acompanhado do presidente Juscelino Kubitschek. A pedra fundamental da chancelaria foi lançada em 23 de fevereiro de 1960 pelo presidente americano Dwight Eisenhower.