A indústria brasileira de fertilizantes negocia com o governo federal um subsídio de R$ 2 bilhões por três meses para evitar o desabastecimento de adubos causado pela guerra no Irã.
O foco da proposta é o enxofre, insumo cujo transporte global foi afetado pelo bloqueio parcial do Estreito de Ormuz, informou a Mosaic, líder do setor no país, à Reuters.
Por que o enxofre travou a cadeia de fertilizantes
Cerca de 60% da produção mundial de enxofre, matéria-prima dos fertilizantes fosfatados, escoa pelo Estreito de Ormuz, via marítima que sofre interrupções desde o agravamento da guerra no Irã. Como o Brasil importa por volta de 90% dos adubos que consome, a interrupção do fluxo global pressiona diretamente os preços e a disponibilidade no mercado interno — vulnerabilidade que já era apontada em análises de abril, quando a dependência externa do país chegava a 88%.
Segundo Eduardo Monteiro, country manager da Mosaic no Brasil e Paraguai, o mercado nacional de fertilizantes deve cair de um recorde de 49 milhões de toneladas em 2025 para uma faixa entre 42 milhões e 45 milhões de toneladas neste ano. A companhia já havia hibernado unidades de produção de fosfatados no país por falta de enxofre, medida detalhada na redução de produção anunciada em julho.
Risco para a safra 2026/27
Monteiro alertou que a economia na aplicação de adubos, resultado dos custos mais altos, pode comprometer a produtividade da safra de soja e milho 2026/27, cujo plantio começa em setembro. O cenário se soma ao menor poder de compra dos produtores, que enfrentam margens reduzidas, crédito restrito e juros altos.
As importações brasileiras de fertilizantes já recuaram 10% no acumulado do ano até julho e 50% em agosto, reflexo da retração da demanda diante dos preços elevados. Para Monteiro, a ausência do subsídio pode gerar um rombo de R$ 20 bilhões a R$ 30 bilhões nas contas públicas — para cada real investido na subvenção, o setor estima perdas de 10 a 15 reais em caso de omissão.
O tema é discutido em uma “sala de situação” que reúne os ministérios da Agricultura, Minas e Energia, Casa Civil e Fazenda, mas ainda sem definição sobre o subsídio. Mesmo que o conflito termine rapidamente, o executivo estima que a normalização da oferta pode levar até 12 meses, já que outros fornecedores, como China e Rússia, também restringem exportações — a russa, inclusive, afetada por ataques ucranianos a suas instalações.
A pressão sobre o abastecimento global já preocupa o setor fora do Brasil: em maio, o CEO da Yara chegou a projetar que até 10 bilhões de refeições semanais poderiam deixar de ser produzidas no mundo por falta de fertilizantes, dimensão que ajuda a explicar a urgência do pedido brasileiro.