Mais da metade das brasileiras que já se relacionaram com homens — 54% — afirma ter sofrido algum tipo de violência de um parceiro ou ex-parceiro, segundo pesquisa dos institutos Patrícia Galvão e Locomotiva divulgada nesta quarta-feira (29).
O levantamento ouviu 1.500 pessoas de todo o país entre 22 e 30 de abril e revela um contraste: apenas 11% dos homens entrevistados reconhecem ter cometido alguma agressão contra companheira ou ex-companheira.
O estudo, batizado “20 anos da Lei Maria da Penha”, ouviu 1.500 pessoas com autopreenchimento digital e margem de erro de 2,8 pontos percentuais, revelando quão profundo é o descompasso entre a violência sofrida e a violência reconhecida pelos agressores.
Da lembrança espontânea às perguntas específicas
O levantamento mostra que cerca de 30 milhões de mulheres afirmam espontaneamente já ter sido vítimas de violência de um parceiro ou ex-parceiro. Quando a pergunta detalha situações específicas previstas em lei — como xingamentos, ameaças, agressões físicas ou controle financeiro —, esse número sobe para quase 48 milhões de brasileiras.
A diferença entre os dois totais indica que parte das vítimas não reconhece como violência comportamentos que a Lei Maria da Penha já enquadra como crime, o que ajuda a explicar por que o percentual de agressores autodeclarados fica tão abaixo do relatado pelas mulheres.
Uma lei que já dura duas décadas
Batizada em homenagem à farmacêutica cearense Maria da Penha — que ficou paraplégica após duas tentativas de feminicídio cometidas pelo então marido e levou quase 20 anos para ver o agressor punido —, a Lei nº 11.340/2006 é hoje o principal instrumento legal do país contra a violência doméstica e familiar.
A pesquisa, encomendada pelos institutos Patrícia Galvão e Locomotiva, ouviu 1.500 pessoas de todas as regiões do Brasil entre 22 e 30 de abril de 2026, por meio de entrevistas digitais de autopreenchimento, com margem de erro de 2,8 pontos percentuais.
Como romper o ciclo da violência
Para as autoras do estudo, a denúncia é o passo decisivo para romper o ciclo da violência, responsabilizar agressores e conectar vítimas à rede de proteção. Em casos de emergência ou flagrante, a orientação é acionar a Polícia Militar pelo 190. Também é possível procurar as Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (Deams), o Ministério Público ou a Defensoria Pública.
Os números da pesquisa dialogam com dados oficiais recentes: o Brasil registrou 1.571 feminicídios em 2025, recorde histórico equivalente a quatro mulheres assassinadas por dia, mesmo com a queda geral nas mortes violentas no país.
Romper esse ciclo, como mostram histórias reais, costuma passar pela busca por independência financeira — caminho que levou mulheres como Nany Cardoso a recomeçar como motorista de aplicativo depois de denunciar o agressor.
