O Banco Mundial alertou nesta terça-feira que a escalada da guerra entre Estados Unidos e Irã pode reduzir o crescimento econômico mundial a apenas 1,3% em 2026, ante 2,9% registrados no ano passado, segundo o economista-chefe Indermit Gill.
Em entrevista à Reuters, Gill afirmou que o cenário mais grave elaborado pelo banco — hostilidades por seis meses ou mais — já está próximo de se concretizar, o que levaria a inflação global a 4,5%.
Escalada militar reacende temores de choque econômico
O conflito se intensificou nesta semana, com forças dos Estados Unidos bombardeando alvos no sul e no oeste do Irã, enquanto Teerã revidou com ataques a instalações norte-americanas no Barein, no Kuwait e na Jordânia. O cenário ganhou força depois que Trump declarou encerrado o acordo com o Irã, movimento que já havia disparado o petróleo em mais de 5% em um único dia.
Estreito de Ormuz e Bab el-Mandeb sob risco
O tráfego marítimo pelo Estreito de Ormuz segue interrompido, enquanto os houthis do Iêmen, aliados do Irã, anunciaram bloqueio naval aos embarques da Arábia Saudita pelo estreito de Bab el-Mandeb, rota que dá acesso ao Mar Vermelho. Para Gill, danos prolongados à infraestrutura petrolífera da região também podem interromper embarques de fertilizantes, hélio e enxofre, ampliando a insegurança alimentar e pressionando ainda mais os juros globais.
Países pobres e endividados na linha de frente
Segundo Gill, nações que ainda não se recuperaram da pandemia de Covid-19 podem enfrentar maior insegurança alimentar, incluindo riscos ao abastecimento global de medicamentos — o Brasil importa cerca de 90% dos insumos farmacêuticos ativos da China e da Índia. Já os países mais endividados tendem a sofrer com o custo mais alto de financiamento.
A previsão de junho do Banco Mundial mostrou que 40% dos países de baixa e média renda — 32 nações — já estão em situação de sobreendividamento ou correm alto risco de chegar a esse ponto, número que pode crescer rapidamente se os juros subirem. A relação dívida/PIB dos emergentes chegou a cerca de 74% em 2025, ante 50% a 55% antes da pandemia. Sinais de pressão já surgem: o Paquistão pediu aos Estados Unidos uma linha de estabilização cambial de US$ 10 bilhões, e outros países buscam ampliar empréstimos junto ao FMI.
No Brasil, o mercado tem seguido direção oposta ao alerta: o Boletim Focus reduziu pela terceira semana seguida a projeção de inflação para 2026, agora em 5,15%, mesmo com a guerra em curso. Gill ressalvou que as maiores economias — Estados Unidos, China e Índia — seguem relativamente protegidas, enquanto os países em desenvolvimento enfrentam riscos bem maiores.