O Grupo de Ação Financeira (Gafi), organismo internacional de combate à lavagem de dinheiro sediado em Paris, alertou nesta quinta-feira (16) que organizações criminosas movimentam bilhões de dólares em recursos ilícitos por meio de criptomoedas.
Segundo o relatório divulgado pelo grupo, brechas na regulamentação global de ativos virtuais têm sido exploradas por redes criminosas para lavar dinheiro em escala cada vez maior.
Avanços insuficientes na fiscalização global
De acordo com o Gafi, os crimes envolvendo ativos virtuais se tornaram mais complexos e interconectados ao longo do último ano. O organismo intergovernamental, criado para coordenar o combate à lavagem de dinheiro entre países, avalia periodicamente o grau de adequação das jurisdições aos seus padrões de fiscalização.
O levantamento mostra progresso: em abril de 2026, 51 das 149 jurisdições analisadas — cerca de 34% do total — estavam “amplamente em conformidade” com as recomendações do grupo para criptoativos, ante 29% no ano anterior. Ainda assim, o Gafi reconhece que persistem lacunas significativas na aplicação de medidas capazes de conter o avanço do crime financeiro digital.
Stablecoins sob medida para o crime
O relatório chama atenção para o uso crescente de stablecoins — criptomoedas atreladas a um ativo de referência, como o dólar — por organizações criminosas. Em vez de apenas utilizar moedas já existentes, algumas redes passaram a desenvolver suas próprias stablecoins, criadas especificamente para resistir ao congelamento de ativos e dificultar a apreensão por parte das autoridades.
No Brasil, o alerta do Gafi dialoga com casos recentes que expõem a dimensão do problema em território nacional. As Forças Integradas de Combate ao Crime Organizado (FICCOs) deflagraram 93 prisões em 14 estados contra redes de tráfico e lavagem de dinheiro do crime organizado, evidenciando como o esquema identificado pelo organismo internacional já opera de forma consolidada no país.
O fenômeno também aparece no mercado de apostas: o governo brasileiro estima que 25 milhões de pessoas apostam em plataformas ilegais usadas como veículo de lavagem de dinheiro pelo crime organizado, outro canal apontado por autoridades como porta de entrada para recursos de origem criminosa no sistema financeiro.
Para o Gafi, o desafio agora é acelerar a adoção dos padrões de fiscalização por parte das jurisdições que ainda não os aplicam integralmente, reduzindo o espaço para que redes criminosas explorem brechas regulatórias em escala global.
