Sentados sobre uma das maiores reservas de diamantes do mundo, os Cinta Larga vivem uma contradição que chegou ao Supremo Tribunal Federal: como controlar um território de 2,7 milhões de hectares do qual US$ 20 milhões em pedras saem ilegalmente todo mês?
A Patjamaaj, associação que representa parte do povo, pediu ao STF que o Congresso regulamente a mineração em terras indígenas. Em fevereiro, o ministro Flávio Dino acatou e deu dois anos ao Legislativo para definir as regras.
Mas nem todos os Cinta Larga querem a regulamentação — e organizações indígenas nacionais alertam que a decisão ignora 391 povos que não foram ouvidos.
Uma riqueza que nunca chegou ao povo
O território dos Cinta Larga, dividido em quatro terras indígenas — Roosevelt, Parque do Aripuanã, Aripuanã e Serra Morena — fica sobre kimberlito, a rocha que forma diamantes, segundo o Instituto Kanindé. Os diamantes foram descobertos oficialmente em 1999. No ano seguinte, já havia garimpeiros não indígenas no local. O ouro era extraído ilegalmente desde a década de 1970.
No auge do garimpo, chegou a haver 5 mil garimpeiros dentro das terras indígenas — mais do que a própria população Cinta Larga, estimada em 1,3 mil na época pelo Instituto Socioambiental. Hoje, o IBGE contabiliza 2.676 indígenas desse povo.
Para Gilmar Cinta Larga, presidente da Patjamaaj, o vazio do Estado abriu espaço ao crime. “Se não há regulamentação, há exploração ilegal, há invasões, há cobiça”, resume. A ideia da associação é que os próprios Cinta Larga criem sua própria mineradora, com possível financiamento do BNDES, sem depender de empresas externas.
A chacina que moldou o pedido
O posicionamento favorável à regulamentação se cristalizou após abril de 2004, quando 29 garimpeiros foram mortos por Cinta Larga em reação à invasão das terras no pico do garimpo ilegal. O episódio gerou promessas do governo federal de agilizar a regulamentação — que nunca veio.
O advogado Marcio Welder Ferreira, que representa a Patjamaaj no STF, argumenta que mineradoras regulares poderiam coibir o crime: “Os invasores entram onde a polícia não está. Quando o particular entra e vai minerar, ele tem obrigações também — vai ajudar a vigiar, a monitorar, a garantir segurança.”
Em fevereiro deste ano, operação do Ibama, da Funai e de forças policiais apreendeu 23 dragas, 12 balsas de mergulho e cinco escavadeiras hidráulicas, além de ouro e mercúrio. O garimpo recua, mas retorna no curto prazo. Como mostrou o Tropiquim, facções criminosas organizadas, incluindo a venezuelana Tren de Aragua, dominam rotas de mineração ilegal no Norte do Brasil, o que ajuda a explicar por que a atividade ressurge após cada operação de desmantelamento.
Divisão interna e resistência nacional
Nem todos os Cinta Larga apoiam a regulamentação. Em reuniões realizadas pelo Ministério dos Povos Indígenas entre setembro e outubro de 2025, participantes relataram experiências traumáticas com a extração de recursos e pediram mais tempo para avaliar os impactos nas próximas gerações. Algumas lideranças se posicionaram contra qualquer forma de mineração.
A Articulação dos Povos Indígenas Brasileiros (Apib) criticou a decisão de Dino por ter se baseado no pedido “de apenas uma associação de um único povo indígena”. Para o coordenador jurídico Ricardo Terena, o posicionamento dos Cinta Larga é exceção — e não tem unanimidade nem dentro do próprio povo: “Essa é uma situação que vai atingir não só o povo cinta larga, mas todas as comunidades indígenas do Brasil.”
O antropólogo João Dal Poz, que trabalhou com os Cinta Larga de 1980 a 2017, define o processo como uma “tragédia social”: destruição da mata ciliar, poluição dos rios com mercúrio, malária, disseminação de drogas e álcool nas aldeias, prostituição e abusos sexuais — incluindo dois estupros de meninas indígenas registrados em 2015. A Festa do Porcão, ritual central da cultura do povo, ficou 20 anos sem acontecer.
Gilmar Cinta Larga afirma que a festa voltará em 2026 e que a cultura persiste: crianças falam a língua materna e há oficinas de arco e flecha. Para ele, a regulamentação vai além do acesso aos royalties — é uma afirmação de protagonismo. “O indígena tem o potencial, sim, de empreendedor, de ajudar o país a se desenvolver”, diz o presidente da Patjamaaj.
