A Prefeitura de São Paulo notificou o Instituto Conhecer Brasil (ICB) para justificar R$ 12 milhões em notas fiscais suspeitas e devolver R$ 906 mil ao erário por notas canceladas — tudo dentro do contrato de wi-fi gratuito nas periferias da capital.
A ONG é comandada por Karina Ferreira da Gama, produtora do filme Dark Horse, sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). A notificação, emitida em 1º de julho pela Secretaria de Inovação e Tecnologia, dá 30 dias para que a entidade responda.
O contrato investigado soma R$ 108 milhões e financia pontos de internet gratuita em bairros periféricos de São Paulo.
Empresa de suspeito do PCC entre as notas cobradas
A devolução de R$ 906 mil é exigida por notas fiscais canceladas apresentadas pelo ICB na prestação de contas. Entre elas estão três notas da JR Feijão Ltda., do Ceará, que somam R$ 406.752,50, e uma nota de R$ 500 mil da Favela Conectada Serviço de Tecnologia Ltda. — empresa que pertencia a Alex Bispo dos Santos até dezembro de 2025.
Alex está preso por suspeita de feminicídio e é apontado pelo Ministério Público como membro do Primeiro Comando da Capital (PCC), sendo identificado dentro da facção como “escorpião do PCC”. A Favela Conectada também tem outras duas notas, que somam mais de R$ 1,2 milhão, inseridas sem a devida especificação dos serviços prestados.
R$ 11 milhões em notas de empresas alvejadas pela polícia
Outros R$ 11 milhões em notas das empresas Make One Tecnologia Digital Ltda., Complexsys Soluções Integradas LTDA e Ultra IP Tecnologia completam o volume suspeito. As três foram alvo de busca e apreensão pela 2ª Delegacia de Crimes Contra a Administração Pública (Dicca) em junho de 2025 — ao lado do próprio ICB.
Segundo a secretaria, as notas “não especificam as áreas geográficas atendidas e os serviços praticados”. O ICB deverá apresentar relatórios de medição e mapas de ativação para comprovar que os recursos foram aplicados de forma regular.
Prefeitura e ONG divergem sobre a gravidade do processo
Karina da Gama classificou a notificação como parte do “fluxo ordinário de acompanhamento” das prestações de contas e afirmou que o ICB “permanece colaborando integralmente”, acionando fornecedores para regularizar a documentação dentro dos prazos.
A gestão Ricardo Nunes (MDB) definiu a notificação como resultado de “trabalho sério e rigoroso de fiscalização ativa”, mas reconheceu que a glosa ainda não é definitiva. A avaliação final ocorrerá somente após o prazo de resposta da ONG, conforme a Lei Federal nº 13.019/2014, marco regulatório das organizações sociais.
O documento foi divulgado quase um ano depois de o ICB entregar as prestações de contas referentes ao 1º semestre de 2025 — e apenas após pressão sistemática da imprensa, que aponta irregularidades desde junho de 2024. Caso a ONG não apresente justificativas no prazo, os gastos questionados serão definitivamente rejeitados e os valores deverão ser devolvidos ao erário municipal.
