O governo americano reagiu com preocupação à decisão do Brasil de expulsar Sergey Cherkasov, apontado pelos EUA como agente do GRU, o serviço de inteligência militar russo.
Em nota publicada nesta quarta-feira (8), o Departamento de Estado afirmou estar “profundamente preocupado” com a medida e pediu ao Brasil que considere o precedente criado pela decisão.
A expulsão foi publicada no Diário Oficial da União na segunda-feira (6) — mas só poderá ser executada após o fim da pena de Cherkasov ou por determinação judicial.
Sergey Cherkasov está preso desde 2022 em uma penitenciária federal de Brasília, onde cumpre pena de cinco anos por falsidade ideológica. Ele viveu por 12 anos no Brasil como “Victor Muller Ferreira” — identidade usada, segundo investigações, para se infiltrar em instituições acadêmicas e políticas nos Estados Unidos e na Europa.
A disputa diplomática pelo espião
A batalha pelo destino de Cherkasov se arrasta desde 2022. Em agosto daquele ano, a Rússia solicitou ao STF sua extradição, alegando que ele era procurado por tráfico de drogas — versão contestada pelos EUA e por autoridades brasileiras como uma possível tentativa de repatriar o agente.
Em março de 2023, o Departamento de Justiça americano apresentou acusação criminal contra ele, afirmando que era agente do GRU e havia se infiltrado em círculos acadêmicos e políticos nos EUA, além de cometer fraudes financeiras e irregularidades em vistos. No mesmo mês, o ministro Edson Fachin, relator do caso no STF, autorizou a extradição para a Rússia — condicionada à conclusão das investigações no Brasil.
Em julho de 2023, o Ministério da Justiça negou formalmente o pedido americano, argumentando que já havia uma decisão do STF favorável à extradição russa. No fim de 2025, com todas as pendências judiciais encerradas, a decisão passou a depender da Presidência da República e foi conduzida pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública.
Em nota, Washington também pediu que o Brasil trabalhe em conjunto com os EUA para “responsabilizar” quem, segundo o governo americano, “ameaça nossa segurança coletiva” — afirmando que a liberação enfraquece o compromisso conjunto de combate à interferência estrangeira.
O Brasil como base de disfarce de espiões russos
O caso Cherkasov é parte de uma operação maior. Uma investigação da Polícia Federal identificou pelo menos nove supostos agentes russos que usaram documentos brasileiros como disfarce. Nenhum deles coletava informações sobre o Brasil — o país era apenas um trampolim para construir identidades sólidas antes de atuarem em outros países, principalmente nos EUA e na Europa.
Entre os casos revelados estão José de Assis Giammaria (na realidade Mikhail Mikushin), preso na Noruega em novembro de 2022 enquanto se passava por pesquisador numa universidade do Ártico, e Gerhard Daniel Campos (supostamente Artem Shmyrev), que fugiu do Brasil pouco antes de a PF deflagrar uma operação para prendê-lo e nunca mais foi localizado.
Cherkasov chegou a morar nos EUA a poucos quilômetros da sede da CIA. Foi detido em abril de 2022 em Amsterdã quando tentava ingressar na Holanda para estagiar no Tribunal Penal Internacional, em Haia. Devolvido ao Brasil, foi condenado a 15 anos de prisão por uso de documento falso — pena posteriormente reduzida para cinco anos. Ele sempre negou ser espião a serviço do governo russo.
Com a decisão de expulsão publicada pelo governo Lula, encerra-se um capítulo incomum da diplomacia entre Brasil, Rússia e Estados Unidos. A expectativa é de que, caso o STF determine a execução da medida do Ministério da Justiça, Cherkasov retorne imediatamente à Rússia.
