Cinquenta dias após a abertura das vaquinhas eleitorais para 2026, Renan Santos, pré-candidato à Presidência pelo partido Missão, lidera o ranking nacional com mais de R$ 1,1 milhão arrecadado por cerca de 19 mil doadores.
Os dez pré-candidatos mais apoiados na plataforma QueroApoiar somam juntos quase R$ 3 milhões em doações de pessoas físicas — modalidade regulamentada pelo TSE desde 2019.
Lula, Flávio Bolsonaro, Romeu Zema e Ronaldo Caiado ainda não abriram vaquinhas. Candidaturas de partidos maiores devem lançar campanhas de arrecadação somente entre o final de julho e o início de agosto.
Direita domina o ranking — e não é por acaso
Praticamente todos os pré-candidatos no topo do ranking têm forte presença nas redes sociais e a maioria é de direita. Para o cientista político Marco Antonio Teixeira, professor da FGV, há uma explicação histórica: “Os políticos de direita atuam nas redes sociais há mais tempo. A esquerda começou a enfrentar as redes sociais recentemente.”
Teixeira aponta correlação direta entre engajamento digital e arrecadação financeira — e ressalta que os nomes no topo não chegaram lá por espontaneidade. “Esse top 10 é resultado de uma estrutura de organização e anos de trabalho por trás dos nomes”, avalia.
Renan Santos e Kim Kataguiri contam com a infraestrutura do Missão. Já Jones Manoel, filiado ao PSOL em março, tem quase 2 milhões de seguidores no Instagram e um ativismo que precede a política partidária. Humberto Matos e Professor José movimentam canais no YouTube dedicados à análise política. Marcel Van Hattem e Gustavo Gayer, por sua vez, são congressistas com longa trajetória institucional.
Outro perfil que chama atenção é o de Rony Gabriel, vereador do PL em Erechim (RS), que ganhou notoriedade ao revelar o esquema de contratação de influenciadores para defender o Banco Master e difamar o Banco Central — e aproveitou o protagonismo para se lançar politicamente.
Missão aposta nas vaquinhas por necessidade financeira
O partido Missão lidera a arrecadação nas plataformas — e a estratégia não é por opção, mas por restrição. O Missão receberá apenas a cota mínima de R$ 3,3 milhões do Fundo Eleitoral, valor que obriga a legenda a apostar no financiamento coletivo como pilar central de campanha.
“O Missão terá um recurso bem limitado de Fundo Eleitoral. A gente não tem Fundo Partidário. Ele será dividido entre os outros candidatos, menos o pré-candidato Renan Santos, que vai ter arrecadação própria”, afirmou Amanda Vettorazzo, vereadora em São Paulo e coordenadora da campanha.
Por que os grandes ainda não abriram vaquinha
A ausência de Lula (PT), Flávio Bolsonaro (PL), Romeu Zema (Novo) e Ronaldo Caiado (PSD) nas plataformas de doação tem explicação estratégica — e financeira. Para o advogado eleitoral Francisco Zarco, essas candidaturas “se baseiam não tanto no engajamento dos eleitores, mas sim na força das máquinas públicas”.
O PL vai receber R$ 881,6 milhões do Fundo Eleitoral em 2026 — o triplo do ciclo anterior —, tornando as vaquinhas um instrumento marginal para o partido de maior bancada no Congresso. A lógica vale para outros grandes partidos: quanto mais robusto o fundo, menor a dependência do engajamento popular direto.
O calendário eleitoral prevê que os partidos apresentem a prestação parcial de contas — incluindo valores recebidos via financiamento coletivo e identificação dos doadores — entre 9 e 13 de setembro. A prestação completa pode ser enviada até 14 de novembro.
As doações são permitidas desde 15 de maio até o dia da eleição. O TSE autorizou dez plataformas para intermediar o processo, com obrigação de atualização dos valores em tempo real. A modalidade acumulou R$ 14,6 milhões nas eleições presidenciais de 2022 e R$ 7,7 milhões nas municipais de 2024.
