A Meta transformou seus próprios funcionários em matéria-prima para treinar inteligência artificial. Um programa que rastreava cliques, digitações e histórico de navegação foi lançado em abril e suspenso em 22 de junho — quando um vazamento expôs dados privados de toda a equipe.
Mais de 1.600 empregados assinaram uma petição para barrar a iniciativa. A empresa, que já demitiu cerca de 8.000 pessoas neste ano — quase 10% de sua força de trabalho —, convive com o que funcionários descrevem como uma “cultura do medo”.
Iniciativa suspensa após expor dados de funcionários
Batizada internamente de Model Capability Enhancement Initiative, a iniciativa foi defendida pelo próprio Mark Zuckerberg em reunião interna. “Os modelos de IA aprendem observando pessoas realmente inteligentes fazendo coisas”, afirmou o fundador, segundo a revista Wired. O programa enfrentou resistência imediata: mais de 1.600 funcionários assinaram uma petição para suspendê-lo, comparando a Meta a uma “fábrica de extração de dados”.
Uma falha no sistema selou o destino da iniciativa. Conversas privadas e métricas de desempenho foram expostas para todos os funcionários, levando à suspensão em 22 de junho. “Estamos suspendendo a iniciativa enquanto investigamos”, informou um porta-voz da empresa.
Corrida pela IA remodela a empresa por dentro
O episódio revela a escala da aposta da Meta na inteligência artificial. A empresa planeja investir até 145 bilhões de dólares — cerca de 750 bilhões de reais — em infraestrutura de IA neste ano, quase o dobro do valor investido em 2025. Para alimentar essa corrida, cerca de 6.500 funcionários foram realocados para a divisão de IA. Muitos reclamaram de tarefas “monótonas” destinadas a treinar máquinas — ou a automatizar seus próprios empregos.
Desde o início do ano, a Meta eliminou aproximadamente 8.000 cargos, o equivalente a 10% de sua força de trabalho. Transferências forçadas e supressões de postos afetaram quase um quinto dos empregados em apenas 12 meses.
A empresa tenta recuperar terreno frente a Google, OpenAI e Anthropic na disputa pelos modelos de IA mais avançados. Seus próprios modelos, adiados diversas vezes, decepcionaram até internamente. Yann LeCun, vencedor do Prêmio Turing e cientista-chefe de IA da Meta, disse ao Financial Times que a busca por “superinteligência” baseada em grandes modelos de linguagem leva a “um beco sem saída”.
Enquanto reorganiza sua estrutura interna, a Meta registrou lucro de quase 23 bilhões de dólares no primeiro trimestre de 2026 — alta de 30% em relação ao mesmo período do ano anterior. A receita segue concentrada em publicidade no Facebook, Instagram e WhatsApp.
A empresa também testa novos caminhos de crescimento. Um aplicativo de apostas chamado Arena está sendo avaliado, possivelmente em parceria com a Polymarket e a Kalshi. O Arena funcionaria inicialmente com sistema de pontos sem dinheiro real, mas com possibilidade futura de apostas reais — parte da estratégia de Zuckerberg de diversificar receita além das redes sociais.
No campo jurídico, a pressão aumenta. Em março, um júri de Los Angeles considerou a Meta culpada pelos efeitos da dependência em redes sociais — apenas um dia após condenação no Novo México por negligência na proteção de menores. A Meta recorreu, mas outros julgamentos estão previstos para este ano. Uma juíza federal também recusou arquivar ação movida por 29 estados americanos que acusa a empresa de projetar suas plataformas para tornar crianças dependentes, ampliando o cerco judicial.
A Meta ainda investe em eletrônicos de consumo, com foco em óculos inteligentes. A diversificação, porém, ocorre em paralelo a um ambiente interno descrito como instável — e a resultados em IA que, até aqui, ficaram abaixo das expectativas.
