O Tesouro dos Estados Unidos sancionou nesta quarta-feira (1°) dois brasileiros e três empresas por operar uma rede de lavagem de dinheiro para o PCC. A ação é parte da resposta do governo Trump à presença da facção no sistema financeiro americano.
O principal alvo é Victor Henrique de Oliveira Shimada, apontado como o principal elo entre o PCC e traficantes internacionais. Segundo a investigação, ele e sua organização lavaram mais de US$ 30 milhões usando criptomoedas para transferir os fundos ilícitos de volta ao Brasil.
Operação com raízes na Flórida e em São Paulo
A rede funcionava a partir de dois centros: a Flórida, nos Estados Unidos, e São Paulo. Shimada usava empresas registradas em seu nome para receber recursos ilícitos vindos dos EUA e ocultar a origem do dinheiro antes de reintroduzi-lo na economia brasileira.
Uma dessas empresas, a Victory Trading, foi utilizada para lavar dinheiro desviado de um clube de futebol brasileiro em um esquema de fraude publicitária — o mesmo envolvendo a plataforma VaideBet, ex-patrocinadora do Corinthians. Shimada já havia sido denunciado pelo Ministério Público de São Paulo, em julho de 2025, pelos mesmos crimes. O comunicado americano não menciona o nome do clube.
A segunda sancionada, Stella Stefanie de Oliveira, apontada como parente e colaboradora de Shimada, teria auxiliado na logística e intermediado a movimentação de grandes quantias em dinheiro.
PCC como ameaça transnacional
O Tesouro americano classifica o PCC como uma das maiores organizações criminosas transnacionais do mundo, com operações confirmadas no Japão, na Turquia e no Reino Unido. Para as autoridades americanas, redes como a de Shimada sustentam o tráfico de drogas, o contrabando de dinheiro em espécie para cartéis e outras atividades que alimentam o caixa da facção.
A operação desta quarta-feira materializa exatamente o cenário que Brasília temia desde que a designação terrorista entrou em vigor: os EUA sancionando pessoas físicas e empresas brasileiras acusadas de facilitar a lavagem de dinheiro para o PCC. O governo brasileiro já havia monitorado de perto esse ‘modelo mexicano’ de pressão americana.
A ação desta quarta-feira é a terceira operação do OFAC contra o PCC. A facção foi alvo pela primeira vez em 2021, por envolvimento no tráfico internacional de drogas. Em 2024, o órgão puniu Diego Macedo Gonçalves do Carmo, também acusado de lavagem de dinheiro para a organização.
A operação é coordenada pela Força-Tarefa de Segurança Interna (HSTF), com participação do escritório do FBI em Miami e da Seção de Lavagem de Dinheiro, Narcóticos e Confisco do Departamento de Justiça dos EUA, além do próprio OFAC.
O pano de fundo é a designação terrorista do PCC e do Comando Vermelho pelo Departamento de Estado americano, anunciada em 29 de maio e vigente desde 5 de junho. Ao oficializar o PCC como organização terrorista, Washington abriu caminho jurídico para ações como o congelamento de ativos e a punição de cidadãos e empresas brasileiras.
A sanção contraria diretamente a leitura do Palácio do Planalto. Menos de um mês atrás, auxiliares do presidente Lula descartavam consequências imediatas da classificação terrorista — a punição desta quarta-feira demonstra que o ritmo americano é mais acelerado do que Brasília estimava.
